Eu já tive que desligar pessoas que eram extremamente competentes, mas que tinham um problema que não era o código que elas faziam. No fim, o que faltava eram habilidades humanas na tecnologia. O problema era outro: ninguém queria trabalhar com elas.
E esse cenário não é simplesmente uma exceção à regra. Muitas vezes, a gente está tentando esconder uma verdade que está ali, escancarada: não basta ser bom em lógica, frameworks e linguagens. Se você não sabe lidar com pessoas, sua carreira, uma hora, vai parar.
A gente vive em uma era em que a inteligência artificial pode escrever códigos, revisar sistemas e otimizar processos com uma eficiência absurda, muitas vezes muito melhor e mais rápido do que qualquer especialista de tecnologia poderia fazer.
Mas tem algo que nenhuma IA, por mais avançada que seja, consegue replicar com autenticidade, pelo menos não ainda: a capacidade humana de se comunicar, colaborar, liderar, se adaptar e entender o outro.
Essas capacidades têm um nome. Antigamente, eram chamadas de soft skills, mas, recentemente, têm sido chamadas de human skills ou habilidades humanas. Já dá pra entender por quê, não é?
E o curioso é que, por muito tempo, essas habilidades foram tratadas como “extras” no universo da tecnologia. Como se fossem opcionais. Como se trabalhar com máquinas justificasse a dificuldade de lidar com pessoas. Só que o mercado mudou, já faz tempo, e não volta mais atrás.
O paradoxo do profissional técnico e habilidades humanas na tecnologia
Agora me fala a verdade.
Você provavelmente conhece, ou é, aquele profissional que desenvolve bem, resolve bugs impossíveis, entrega com qualidade como poucos na equipe e é a referência técnica do time.
Mas que, em reuniões, prefere o silêncio. Em conflitos, se esquiva, prefere não dar sua opinião. Em projetos colaborativos, sente-se desconfortável, porque não gosta de depender dos outros.
Já viu alguém assim? Eu já vi aos montes.
A pergunta é: até quando essa postura é sustentável?
Grandes empresas de tecnologia já entenderam que as entregas mais valiosas não nascem do trabalho individual, mas da soma de talentos que sabem conversar, negociar, se posicionar e criar juntos.
Isso vale para startups ágeis, para times de produto, para squads de desenvolvimento e até para freelancers que querem clientes fiéis.
O mundo corporativo, mesmo o mais técnico, está cada vez mais humano. E, por mais que isso pareça romântico na fala, é isso que define quem vai ser promovido: você ou o colega do seu lado.
É isso que define se a vaga é sua ou do outro que, apesar de ter um currículo pior do que o seu, trabalha melhor em equipe e se comunica melhor.
A nova exigência do mercado: habilidades humanas
LinkedIn, Forbes, Harvard Business Review, McKinsey: todas essas fontes apontam na mesma direção. As habilidades humanas são o diferencial competitivo do presente e do futuro.
Um estudo do LinkedIn, por exemplo, revelou que 92% dos recrutadores consideram as habilidades humanas tão ou mais importantes do que as habilidades técnicas.
Outra pesquisa, da Deloitte, aponta que, até 2030, duas em cada três habilidades mais requisitadas no mercado serão comportamentais.
Ou seja: não dominar essas habilidades não é mais uma fraqueza aceitável. É uma ameaça real à sua empregabilidade e ao crescimento da sua carreira.
E aqui vai uma provocação: quantas horas você já dedicou a aprender uma nova linguagem de programação?
Agora, quantas horas dedicou para aprender a ouvir melhor? A dar e receber feedback? A gerenciar conflitos? A liderar times?
Pois é. Eu nem preciso ouvir pra imaginar a sua resposta. Está aí um desequilíbrio que você precisa corrigir urgentemente.
O custo invisível de ignorar as habilidades humanas
Isso muda totalmente a vida da pessoa depois que ela percebe.
Talvez você já tenha sentido na pele.
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Aquela promoção que não veio porque “você não está pronto para liderar ainda”.
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Aquele cliente que parou de responder depois de uma reunião truncada.
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Aquele projeto em equipe que foi um caos de comunicação.
Esses são sintomas clássicos da falta de habilidades humanas.
E o pior é que muita gente nem percebe o que está travando seu crescimento.
Atribui ao mercado, à sorte, à empresa… quando, na verdade, o gargalo está no que não foi dito. No que não foi escutado. No que não foi construído em conjunto.
Se você nunca teve um feedback de alguém que te diga isso, mas se identificou no que falei até agora, está na hora de mudar. Não dá pra ficar sempre no “quase fui eu”, “quase conseguimos”, “quase peguei a vaga”, “quase entreguei o projeto”.
Desenvolvimento Conceitual e Explicação
“Você é contratado pelo seu currículo, mas demitido pelo seu comportamento.”
Quem nunca ouviu essa frase, não é? E, por mais clichê que ela seja, ela se confirma em cada entrevista de desligamento, cada reunião de feedback tensa, cada projeto que não avançou por ruídos de comunicação.
Há uma falha estrutural na formação de profissionais de tecnologia: priorizamos demais o conhecimento técnico e ignoramos o desenvolvimento emocional e relacional.
Isso não acontece por acaso. E, se você é de tecnologia, já está nessa armadilha como em uma teia de aranha.
A formação técnica e a negligência comportamental
Você foi ensinado a ser bom sozinho e uma “merda” no coletivo.
Desde o ensino básico, passamos por um modelo educacional que valoriza respostas certas, notas altas e desempenho individual.
Quando entramos nas universidades e cursos técnicos, o padrão se mantém: foco em habilidades técnicas, pouca ou nenhuma abordagem de temas como empatia, escuta ativa, colaboração ou inteligência emocional.
Na prática, criamos profissionais que sabem resolver problemas complexos, mas não sabem pedir ajuda.
Que dominam algoritmos, mas travam em conversas difíceis. Que brilham sozinhos, mas não conseguem brilhar em grupo.
A cultura do “nerd genial e solitário”
A cultura pop e Hollywood também têm sua parcela de culpa.
Hollywood ajudou a eternizar o estereótipo do programador antissocial, brilhante, excêntrico, que se comunica apenas com seu computador.
Filmes como “O Jogo da Imitação” e séries como “The Big Bang Theory” reforçaram essa ideia: quanto mais genial, menos sociável.
Só que o mercado real não funciona como os roteiros de ficção.
Aqui fora, os melhores profissionais não são os mais fechados; são os mais colaborativos. São aqueles que, além de entender de código, entendem de gente.
Habilidades humanas como pontes entre talentos
Imagine um time de desenvolvedores talentosos, cada um excelente na sua especialidade. Agora imagine que eles não se escutam, não sabem negociar prioridades, não compartilham aprendizados.
O que você tem? Um grupo de ilhas, e não um arquipélago conectado.
As habilidades humanas são as pontes que conectam essas ilhas. Elas transformam talentos solitários em times que colaboram entre si. São elas que:
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Evitam retrabalhos causados por ruídos de comunicação;
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Facilitam a gestão ágil, com ciclos de feedback mais efetivos;
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Criam ambientes mais saudáveis e produtivos;
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Aceleram a resolução de conflitos antes que eles virem crises.
Habilidades humanas x habilidades técnicas: a complementaridade essencial
Não seja inocente de tentar escolher entre habilidades técnicas e habilidades humanas. Uma não substitui a outra; elas se potencializam.
Pense em um desenvolvedor brilhante que domina Python, mas não consegue explicar suas ideias para o time. Ou em um product owner com visão estratégica, mas que não escuta o que o cliente realmente precisa.
O talento está ali, mas mal aproveitado.
As habilidades humanas fazem com que o conhecimento técnico se transforme em valor real para o projeto, para o cliente e para a empresa.
O impacto silencioso das habilidades humanas na performance
Um estudo da Carnegie Mellon Foundation mostra que 85% do sucesso profissional vem de habilidades interpessoais e apenas 15% das técnicas.
Em ambientes altamente colaborativos, como os squads ágeis, a ausência de habilidades humanas pode acabar com a produtividade de todo o time.
Além disso, em tempos de trabalho remoto e híbrido, a capacidade de manter conexões humanas, mesmo à distância, se tornou ainda mais crítica.
Saber comunicar-se com clareza, manter engajamento e gerar confiança virtualmente é vital para uma boa carreira.
A inteligência emocional como eixo central
Entre todas as habilidades humanas, a inteligência emocional se destaca como base para as demais. Ela envolve cinco pilares principais:
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Autoconhecimento: saber reconhecer suas emoções e gatilhos;
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Autogestão: lidar com pressão, frustrações e mudanças com equilíbrio;
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Empatia: compreender o outro, mesmo sem concordar;
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Habilidades sociais: construir relacionamentos de confiança;
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Tomada de decisão responsável: agir com consciência e ética.
Desenvolver inteligência emocional é a base para trabalhar a fundação da mudança de comportamento que você precisa.
É como reinstalar o sistema operacional da sua mente. É isso que permite que outras habilidades se manifestem com clareza e consistência.
O profissional de tecnologia do futuro (que já começou)
Não é mais suficiente ser um executor técnico. O mercado está sedento por solucionadores de problemas complexos, por comunicadores claros, por líderes que inspiram, por colegas de time que geram segurança psicológica.
O futuro da tecnologia será cada vez mais humano. E agora que você já entendeu isso, vamos à parte mais importante do podcast: trazer a lista de soft skills e como desenvolvê-las.
Estratégias, Checklists e Ações Práticas
Bom, eu deixei aqui pra você um checklist com as principais habilidades humanas que todo profissional de tecnologia precisa dominar, junto com estratégias práticas para desenvolver cada uma delas.
1. Comunicação clara e empática
O que é: saber se expressar com objetividade, adaptar a linguagem às pessoas com quem você está falando e escutar com atenção genuína. Nada de celular e tela ao mesmo tempo em que está falando com o outro.
Como desenvolver:
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Pratique a escuta ativa em reuniões: olhe nos olhos, anote pontos-chave, evite interromper, revise seu entendimento com as pessoas.
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Reforce mensagens importantes por escrito após reuniões (Slack, Teams, e-mail);
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Treine contar ideias técnicas para pessoas não técnicas (como explicar algo complexo para sua avó);
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Peça feedback sobre sua comunicação após as apresentações.
Esses já são os primeiros passos mais simples para você começar a desenvolver comunicação clara e empatia.
2. Trabalho em equipe e colaboração
O que é: saber atuar de forma cooperativa, contribuindo com ideias, ouvindo os outros e buscando o bem do grupo acima do ego e da entrega individual.
Como desenvolver:
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Participe ativamente de cerimônias ágeis (daily, planning, retrospectiva). Fale, contribua com o time, mas não deixe as cerimônias mais demoradas só porque você precisa falar. Contribua apenas se tiver algo relevante.
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Compartilhe aprendizados com o time. Muitas vezes a gente vai a um evento ou treinamento e, na volta, só compartilha o sentimento “ah, foi legal”, “foi ótimo”… Tá, mas e aí, o que isso vai contribuir com o nosso trabalho como time?
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Pratique pair programming para fortalecer laços e aprender com os colegas. Isso aproxima as pessoas e ajuda a ver pontos de vista diferentes do seu.
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Faça perguntas abertas em vez de dar respostas fechadas. Por exemplo: “O que você acha de fazermos assim?” em vez de “Podemos escolher entre A e B”.
Quando você envolve as pessoas nas decisões e ouve genuinamente, muitas ideias melhores que as suas podem surgir. E isso não é demérito seu. Aprenda que cada pessoa tem suas experiências e que elas, em conjunto, formam o melhor do time.
3. Adaptabilidade e resiliência
O que é: manter estabilidade emocional e foco diante de mudanças, incertezas ou falhas.
Como desenvolver:
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Ao receber uma mudança de escopo, reflita antes de reagir. Muitas vezes a gente trata código e produto como filho e não aceita deixar de lado ou mudar. Isso é um erro. Nada é permanente, e muito menos pessoal.
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Analise o que está sob seu controle em situações difíceis. Na maioria dos casos, a gente reage por coisas que não estão sob nosso controle, seja por decisões superiores, com as quais nem sempre concordamos, seja por cenários alheios à nossa previsão, como “a internet caiu”. Lutar contra algo que não está no seu controle só vai gerar desgaste.
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Crie rotinas de revisão pessoal para lidar melhor com pressão. Pare em algum momento da semana para refletir sobre como você tem trabalhado com o time, o que tem dado certo e errado, quase como uma “retrospectiva individual”.
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Pratique mindfulness ou journaling para lidar com frustrações. No meio do caminho, você vai ter frustrações, fato. A questão é entender, anotar e se preparar para manter o autocontrole em alta e não se deixar levar pela reatividade.
Saber se adaptar e ser flexível em um mundo com mudanças tão rápidas deixou de ser uma habilidade opcional e se tornou uma necessidade básica.
4. Inteligência emocional
O que é: entender e gerenciar suas emoções, reconhecer as dos outros e agir com equilíbrio.
Como desenvolver:
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Identifique seus gatilhos emocionais e reações automáticas. Anote, perceba o que gerou esses gatilhos e escreva como você gostaria de ter agido. Isso vai te ajudar a se preparar para momentos em que esses gatilhos voltem a acontecer no futuro.
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Antes de responder impulsivamente, respire e reflita por cinco segundos. Lembra daquela história de contar até dez? Tem um porquê disso. Nosso sistema emocional é mais rápido que o racional; então, se você responde rápido, a chance de ser apenas uma resposta emocional e instintiva é maior.
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Observe o tom das suas mensagens escritas: está claro e respeitoso? Eu diria até para evitar mensagens apenas escritas, porque isso deixa margem à interpretação de quem está lendo e, muitas vezes, pode gerar ruídos.
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Faça sessões de feedback com foco em empatia e escuta. Muitas vezes, líderes fazem feedback pensando no que precisam falar, e não no que precisam ouvir. Se alguém não está entregando o que você espera, será que você sabe o que está acontecendo com essa pessoa? Já pensou sobre isso?
Inteligência emocional é um dos grandes pilares da mudança de pensamento, saindo do foco das habilidades puramente técnicas para as humanas, seja com o olhar para as suas emoções e comportamentos, seja para o time.
5. Proatividade e autonomia
O que é: agir antes de ser solicitado, propor soluções e assumir responsabilidade pelas entregas.
Essa é uma das habilidades mais desconfortáveis que existem, porque exige que você queira fazer mais. E muitas pessoas só querem fazer o mínimo pelo que estão sendo pagas.
E aí, depois, se perguntam por que não são consideradas em uma promoção ou aumento.
Como desenvolver:
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Identifique melhorias possíveis no processo ou produto e compartilhe. Muitas vezes você está vendo uma oportunidade ou está incomodado com um processo e não fala nada, porque acha que “nada vai mudar” ou que “não vai adiantar falar”.
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Tome a frente em pequenas tarefas voluntariamente. A palavra voluntariamente é a mais forte dessa frase. Se você ficar à frente porque alguém te pediu, já não se trata mais de proatividade. Podem ser tarefas simples e que ninguém esteja esperando, como, por exemplo, marcar um café para a celebração dos aniversariantes do mês.
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Proponha reuniões rápidas quando perceber ruído na comunicação. Muitas vezes, quem está no olho do furacão não percebe que existe ruído. Ou então é aquele grupo com mais de 100 pessoas trocando mensagens de hora em hora, sem chegar a decisão nenhuma, empurrando tudo pra frente. A solução mais rápida é marcar uma reunião simples, rápida, de 15 minutos, para alinhar o que precisa ser decidido, em vez de ficar naquele “reme-reme”.
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Anote ideias em um backlog pessoal e compartilhe com o time. Eu costumo chamar de Parking Lot ou Sandbox: um local onde todos possam se sentir à vontade para colocar ideias e, de tempos em tempos, revisitar para ver o que faz sentido.
Ser proativo não é só tomar iniciativa e sair fazendo coisas, mas estar atento ao que pode gerar mais benefícios para o time e para a empresa.
Seu plano de desenvolvimento
“Ah, Bruno, eu entendi, mas…”
Como eu começo hoje a aplicar essas habilidades humanas que todo profissional de tecnologia precisa dominar?
Monte o seu próprio ciclo:
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Escolha uma habilidade para focar nas próximas duas semanas;
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Defina duas ações práticas que você vai aplicar no dia a dia;
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Peça feedback a colegas sobre sua evolução;
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Reflita, no final de cada semana, o que funcionou e o que pode melhorar;
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Repita o ciclo com outra habilidade.
Essa prática contínua, intencional e observável é o que transforma teoria em hábito. E hábito em diferencial para a sua carreira profissional.
Conclusão
“A tecnologia muda. As ferramentas evoluem. Mas a sua capacidade de se relacionar e liderar continua sendo o que define o seu sucesso.”
Vamos voltar à cena do começo. Aquele profissional brilhante, demitido não por falta de técnica, mas por não saber se conectar.
Agora imagine se ele tivesse aprendido, anos atrás, a escutar com empatia, a dar feedback sem defensiva, a colaborar com leveza. Sua trajetória teria sido outra.
E a sua ainda pode ser.
Você tem o conhecimento técnico. Você sabe programar, estruturar, resolver. Agora está diante da oportunidade de expandir o que significa ser um profissional completo.
Alguém que une a potência das máquinas à sensibilidade humana. Que transforma times, clientes e resultados, começando por si mesmo.
Não espere o momento ideal. O próximo curso técnico não vai resolver isso. Aprender habilidades humanas só quando a crise chega costuma sair caro. Comece agora.
Você pode ser lembrado pelo código que escreveu… ou pelas pontes que construiu.
A escolha é sua.
