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Você não sabe se comunicar como um líder e eu vou te provar isso

“Falar bonito demais pode ser exatamente o motivo pelo qual ninguém te entende.”

Sabe aquele líder que fala, fala, fala… e, no final, ninguém sabe exatamente o que tem que fazer? Pior: ninguém se sente motivado a fazer nada?

Talvez esse líder seja você.

Talvez você esteja achando que sua comunicação está em dia só porque não gagueja numa reunião, sabe usar o gráfico certo na apresentação e não se atrapalha com os números.

Mas a verdade é que liderar não é só falar bem, é comunicar bem. E isso pouca gente sabe fazer.

A comunicação que ninguém te ensinou

A maior parte dos líderes foi promovida porque era boa tecnicamente. A gente, inclusive, já falou disso no episódio anterior.

Entregava resultado, batia meta, era confiável. Ótimo. Mas e depois?

Depois veio o cargo, o time… e, com ele, o abismo entre saber o que dizer e saber como dizer.

E não se culpe, ninguém ensina isso mesmo. Ninguém te prepara para lidar com pessoas que reagem diferente, que pensam diferente, que te ouvem com filtros que você nem imagina.

E aí, sem perceber, você começa a errar:

  • Usa o mesmo tom de fala para conversar com o CEO e com o estagiário;
    ● Fala demais nas reuniões e escuta de menos;
    ● Passa orientações que parecem claras para você, mas que confundem o time;
    ● Adota um estilo “profissional demais” e acaba parecendo frio, distante, até arrogante.

Já viu alguém assim?

E o pior: como ninguém te dá feedback direto sobre isso (porque você é o chefe), você continua achando que está tudo certo.

Mas vou te dar uma dica: não está.

Quando o time desliga da sua voz

Você já percebeu quando alguém desliga de você no meio da sua fala?

A pessoa continua te olhando, até balança a cabeça… mas o olhar já foi para outro lugar.

Pois é, não é só o olhar, o pensamento também já se perdeu.

E isso acontece mais do que você imagina.

E o mais curioso: quanto mais alto o cargo, mais comum é o líder achar que está sendo claro e inspirador quando, na verdade, está sendo monótono, genérico e previsível.

Pensa comigo:

  • Você adapta sua fala de acordo com quem está ouvindo?
  • Você muda o tom quando fala com alguém mais sensível, mais analítico ou mais direto?
  • Você sabe equilibrar autoridade com empatia?

Se a resposta foi “mais ou menos” ou “depende”, então você precisa dar atenção à forma como você se comunica.

O que tá em jogo quando você se comunica mal

Você tem ideia do que você está perdendo quando você se comunica mal?

E não estou falando de erros gritantes, como dar um feedback desrespeitoso ou esquecer de avisar uma mudança importante.

Estou falando dos pequenos ruídos diários, que vão se acumulando e desgastando a confiança do time:

  • Reuniões que não geram clareza e deixam as pessoas mais confusas.
  • Instruções mal passadas que viram retrabalho e geram desgaste no time.
  • Falta de alinhamento que vira conflito entre as pessoas, criando silos.
  • Equipes que perdem motivação porque sentem que o líder “não fala com elas”, mas “fala por cima delas”. Esse, inclusive, é um dos mais comuns e faz com que o time se sinta inferior aos líderes.

Lembra daquela frase que todo mundo já ouviu? “As pessoas não pedem demissão da empresa, pedem demissão do chefe”.

Na maioria dos casos, o ponto de ruptura começa na comunicação.

E antes que você diga “mas eu me comunico bem…”

Eu sei que você provavelmente está pensando: “mas eu falo bem, as pessoas me ouvem, dou meus recados”. Será?

Deixa eu te fazer uma provocação.

Falar bem com o seu time é só uma parte.

Você sabe:

  • Conduzir uma reunião com o board de forma direta, estratégica e sem rodeios?
  • Engajar uma equipe júnior sem parecer arrogante nem exageradamente informal?
  • Dar um feedback difícil sem destruir a confiança da pessoa?
  • Inspirar em momentos difíceis sem cair em frases prontas e clichês?

Se você ficou em dúvida ou disse não para alguma, não se preocupa, que eu tô aqui pra te ajudar, e neste episódio vamos falar sobre cada um desses pontos.

Por que você fala… mas ninguém te segue?

“Não adianta ter voz de comando se ninguém quer te ouvir.”

A verdade é que muita gente escuta você por obrigação, não por conexão. Nossa, Bruno, agora você foi cruel. Não fui, não. Cruel seria se eu tivesse dito simplesmente que você é chato, enfadonho, e que sua personalidade não conecta com o seu time.

Mas fica tranquilo, que provavelmente essa não é sua realidade. Você só precisa de um ajuste na sua forma de comunicar.

Porque liderança não é sobre ter autoridade no crachá, é sobre ter influência na escuta.

É quando a sua fala chega, gera ação e as pessoas se conectam ao seu objetivo.

E não apenas quando ecoa no ar como uma ordem.

Mas por que é tão difícil se comunicar como um líder de verdade, então?

Vamos entender o que acontece nos bastidores da liderança.

1. O erro mais comum: comunicar do seu jeito, e não do jeito que o outro entende

Imagine que você está falando português e seu time entende melhor espanhol. As palavras até se parecem, mas não é tão simples entender tudo.

É isso que acontece quando você usa uma comunicação padronizada e espera que funcione com todo mundo.

Cada pessoa do seu time tem um mapa mental diferente. Uns são mais visuais, outros mais auditivos. Uns querem objetividade, outros precisam de contexto.

Uns entendem rápido, outros digerem devagar.

Líder que não ajusta sua comunicação ao perfil de quem ouve está sempre correndo risco de ser mal interpretado.

Exemplo real:

Quer um exemplo real? Imagine um gerente de produto com perfil supertécnico, detalhista e metódico, que chega para o grupo de UX e fala:

“Pessoal, vamos revisar o fluxo. A gente vai consumir os dados via API RESTful no formato JSON, armazenar no MongoDB e replicar para o cache via Redis, o que reduz a latência em 32%. A parte crítica está na camada de autenticação via OAuth 2.0…”

O time de UX vai olhar pra ele como quem ouve grego. Não foi má vontade. Foi desalinhamento de linguagem.

O líder estava no modo “engenheiro de software”, mas o público precisava de um “tradutor”.

➡ Comunicação de líder é tradução. Traduzir o que você quer dizer para a linguagem de quem precisa entender.

2. A síndrome do “fala bem demais”

Essa é muito comum também. Tem muito líder que fala bonito demais, usa palavras rebuscadas, frases longas, jargões de negócios…

Parece palestra de TED, mas o time sai mais confuso do que entrou.

Essa é a síndrome do exibicionismo intelectual: você quer parecer inteligente e esquece de parecer humano.

➡ Comunicação de liderança não é sobre impressionar. É sobre ser compreendido.

Um bom líder fala como quem senta do lado.

Usa exemplos simples. Frases curtas. Faz pausas. Olha no olho.

Pergunta se a pessoa entendeu, não se ela “concorda”.

No final, eu costumo, inclusive, validar meu entendimento, explicando o que eu entendi e, em seguida, validando o da pessoa, pra saber se estamos alinhados.

3. Reuniões demais, conversas de menos

Você marca uma reunião, passa os pontos principais, apresenta os números, alinha os prazos… e acha que comunicou.

Não. Você não comunicou, você não conectou, você simplesmente informou.

Informação não é comunicação. Porque comunicação exige escuta, ajuste, interpretação, troca de conhecimento e até mesmo conexão emocional.

Líderes que vivem presos em reuniões formais, mas nunca param para uma conversa real com a equipe, estão criando ambientes frios, distantes e improdutivos.

➡ Comunicação de verdade acontece na pausa do café, no Teams, no Slack, no Discord, no “tá tudo bem?”.

E já vou dar uma dica extra: tem que ser sincero. A pessoa percebe quando você está fazendo só pra “cumprir um protocolo”.

Quanto mais alto o seu cargo, mais distante você tende a ficar da realidade do time, a menos que você se esforce ativamente para evitar isso.

4. O tom que não muda nunca (e por isso nunca engaja)

Sabe aquele líder que sempre fala do mesmo jeito?

Em qualquer reunião, com qualquer pessoa, sobre qualquer assunto?

Adivinha: o cérebro das pessoas entra no modo automático.

Elas já sabem o que vai vir. E se desconectam.

Comunicação monótona é inimiga da atenção.

O cérebro humano adora variação: no tom, no ritmo, no volume, na expressão facial.

Um líder que sabe se comunicar lê o ambiente e ajusta o tom.

  • Com o time técnico? Mais objetivo, direto.
  • Com o time criativo? Mais leve, metafórico.
  • Com o CEO? Fala em termos de impacto, visão, futuro. É mais estratégico e sucinto.
  • Com o estagiário? Explica, aproxima, acolhe.

Cada fórum tem uma temperatura. E líder bom é aquele que entra, sente a sala e se adapta na forma de comunicar.

“Liderar é, antes de tudo, aprender a falar com gente diferente de você e ser entendido por todas elas.”

Então, agora que já conhecemos os problemas, e eu tenho certeza de que você deve ter se identificado ou identificado o seu líder com algum ou alguns deles, vamos falar sobre…

Como melhorar efetivamente a sua forma de se comunicar como líder

🔄 Adaptar sua fala

Use a técnica Matricial de Estilo + Temperatura do Ambiente.

Matricial de Estilo é um mapeamento simples que todo líder deveria ter de cor. Consiste em se preparar com alguns questionamentos antes da conversa.

  • O que esse público valoriza? (clareza, agilidade, acolhimento, contexto…)
  • Que tipo de linguagem esse grupo entende melhor? (analítica, emocional, inspiracional, visual, direta…)

Depois, aplique o termômetro da sala para avaliar como está o ambiente da reunião, mesmo que seja uma reunião online.

  • Qual o clima emocional do ambiente? Tenso, disperso, pesado.
  • Está tenso? Relaxe no tom.
  • Está disperso? Seja mais objetivo.
  • Está pesado? Traga leveza (sem infantilizar).

Vá ajustando o tom ao longo da reunião.

→ Comunicação de líder bom é como DJ: sente o momento e ajusta o ritmo, o estilo de música, a batida.

🔄 Escutar mais do que falar

Tem líder que abre a reunião, fala meia hora de monólogo, fecha com um “alguém quer falar mais alguma coisa?”… e ninguém fala nada.

Porque o líder já falou por todo mundo.

A solução: Roteiro em 3 blocos + Escuta Intencional

Você precisa transformar reuniões em espaços de construção coletiva. Não é um TED Talks do chefe.

Use o modelo CED.

  1. Contexto – Apresente o problema ou tema com 2–3 frases.

  2. Exploração – Traga perguntas abertas e específicas. Ex.: “Quais alternativas temos para esse desafio?” ou “O que está funcionando e o que não está?”

  3. Decisão – Feche com encaminhamentos claros e validados pelo grupo, com ações e responsáveis definidos. Senão, essa reunião será apenas um bate-papo.

E, claro, pratique a Escuta Intencional: anote, repita com suas palavras, pergunte de volta.

“O que você quis dizer é isso? Faz sentido pra todo mundo?”

→ Ouvir com presença, com intenção, é liderar com humildade, e isso gera conexão real.

🔄 Alinhar entendimento e expectativa

Muitas vezes você acha que foi claro. Só que a entrega volta errada. Aí você pensa: “Meu time não entendeu”. Mas a pergunta certa seria: “Eu expliquei do jeito certo?”

E, pra você não precisar errar mais nesse ponto, use o modelo ERV.

A solução: Modelo “Expectativa + Resultado + Verificação”

  1. EXPECTATIVA: O que eu espero que aconteça, e por quê?
    ○ “Quero que você revise esse material, mas focando nos pontos que podem gerar ruído pro cliente.”

  2. RESULTADO ESPERADO: O que é uma entrega boa nesse caso?
    ○ “Preciso que traga uma versão com sugestões de mudança até sexta, já revisada com base nos comentários anteriores.”

  3. VERIFICAÇÃO DE ALINHAMENTO:
    ○ “Só pra garantir que estamos na mesma página: o que você entendeu que precisa fazer?”

Esse último passo é o mais negligenciado, porque você acha que, só porque falou os dois primeiros, a pessoa entendeu. E é exatamente o passo de verificação que garante isso.

Se o time não souber repetir o que você disse, é porque você ainda não comunicou. Só falou.

🔄 Seja mais vulnerável e humano

Você quer manter postura, quer mostrar preparo, quer passar segurança. Mas, no processo, perde a sua personalidade, a sua humanidade, fica frio.

Seu time te respeita. Mas não se conecta com você.

É aqui que ser vulnerável se torna uma atitude essencial para reconectar você com o time.

A solução: Modelo “Base + Brecha + Direção”

Esse é um modelo que líderes de verdade usam em momentos delicados ou de desconexão.

  1. BASE (segurança emocional):
    ○ “Quero abrir esse espaço com respeito e transparência. É um ambiente seguro onde podemos falar de forma aberta e sem julgamentos.”

  2. BRECHA (vulnerabilidade intencional):
    ○ “Eu mesmo tive dificuldade em entender esse projeto no começo.”
    ○ “Não tenho todas as respostas aqui, e tá tudo bem.”

  3. DIREÇÃO (clareza e comando):
    ○ “Mas a gente vai construir isso junto. E eu tô aqui pra facilitar esse caminho.”

→ Quando o time vê um humano com direção clara, ele sente segurança real.

O que muda quando você aplica tudo isso?

Você se torna um líder que:

  • Fala com qualquer pessoa, em qualquer nível, com clareza e respeito.
  • Cria ambientes onde o time contribui e não apenas obedece.
  • Garante que a mensagem chegou do jeito certo.
  • E inspira sem precisar virar palestrante motivacional.

Mas o mais importante: você deixa de ser o chefe que o time tolera e se torna o líder em quem o time confia.

A liderança que fala bonito… mas ninguém ouve

“No fim das contas, ou você aprende a se comunicar ou aprende a lidar com os efeitos de não ter sido compreendido.”

Você começou este artigo achando que sabia se comunicar como um líder.

E tudo bem. Muita gente acha, e alguns até sabem.

Afinal, você fala com clareza, se expressa bem, usa os argumentos certos, apresenta com segurança…

Mas agora você viu o que está por trás disso tudo.

Falar não é comunicar. E comunicar não é dominar ou mandar, é conectar.

 

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