A teoria do Cisne Negro

Você conhece a Teoria do Cisne Negro?  Se você não conhece, não se preocupe, é apenas um nome bonito para falar de algo que já acontece na nossa vida há muito tempo, mas que tem tudo a ver como o nosso momento atual.

A origem

Tudo começou em 1697, quando o explorador holandês Willem de Vlamingh encontrou cisnes negros em uma de suas viagens na Austrália. Esta descoberta foi tão impactante porque até 1697, não existia nenhuma evidência da existência de cisnes negros.

Anos depois os economistas passaram a usar essa metáfora, para explicar que não é apenas porque um fato ou evento nunca aconteceu que ele nunca acontecerá, assim como o cisne negro.

A teoria se tornou realmente popular em 2007, quando o matemático Nassim Nicholas Taleb escreveu o livro A Teoria do Cisne Negro.

Em seu livro, Taleb explica que a teoria se refere a um acontecimento inesperado e raro com grandes ramificações. Um evento praticamente impossível de se prever e, portanto, difícil de se mitigar. Mas depois que ocorre, parece óbvio que iria acontecer um dia. Qualquer relação com o coronavírus não é mera coincidência.

As ramificações desses eventos geralmente impactam grande parte da humanidade e criam um ponto de inflexão na economia, sociedade ou cultura mundial.

A queda do muro de Berlim em 1989, acabando com a Guerra Fria e unificando as Alemanhas e o ataque terrorista às Torres Gêmeas em 2001 são exemplos de eventos que não eram previsíveis, tiveram diversas ramificações e impactaram grande parte da humanidade.

Caracteristicas da Teoria do Cisne Negro

Taleb determina que para um evento ser considerado Cisne Negro ele deve ter três características principais:

Imprevisibilidade

A primeira condição é que esse evento aconteça de surpresa, ou seja, não é possível calcular uma probabilidade através de métodos matemáticos de quando e como ele poderia ocorrer. Ele literalmente pega todo mundo de surpresa.

Quem poderia ter previsto o ataque às Torres Gêmeas, a Pearl Harbor, em 1941 ou até mesmo as crises financeiras de 1929 e 2008.

A crise financeira de 2008 inclusive me pegou desprevenido. Na época eu estava comprado ações de vários lotes da Petrobras e Vale do Rio Doce e acabei ficando preso com aquelas ações que saíram de aproximadamente 50 reais para 20 reais.

Alto Impacto

A segunda condição é que seja de alto impacto. As consequências do evento devem ser de grande amplitude e em geral chegam a um nível global. Por exemplo: as Guerras, crises financeiras, catástrofes naturais e pandemias.

Facilidade de Explicar Após o Ocorrido

Apesar de ser algo imprevisível antes de acontecer, após o acontecimento se torna muito mais fácil ver o que estava por vir e explicar. Tipo engenheiro de obra pronta, que fala dos problemas óbvios, mas que não foram previstos.

Por exemplo, após a crise financeira de 2008, era clara a bolha imobiliária que estava se formando e que ela iria estourar causando uma crise.

Tentamos usar esses sinais de eventos que aconteceram pra nos preparar para o futuro, mas a verdade é que a não linearidade acaba fazendo com que não seja possível.

É fácil percebe os sinais depois do que já aconteceu. Essa é uma característica comum ao ser humano. Pense em quantas vezes você já ficou doente e depois percebeu que já vinha sentindo os sintomas. Ou após o término de um relacionamento, que depois percebeu muitas coisas que não davam certo e já estava mostrando que o relacionamento iria acabar.

Na maioria dos casos, optamos por não acreditar no que vai acontecer e fechamos os olhos para os sinais. O mesmo aconteceu na pandemia.

COVID foi um cisne negro?

Na opinião de alguns especialistas não, pois eles poderiam se basear em pandemias anteriores e até mesmo nas Síndromes Agudas Respiratórias que já surgiram. Nós já sabíamos que isso iria acontecer em algum momento e não nos preparamos.

Outros dizem que por mais que pudéssemos pensar que algo assim poderia acontecer, o vírus e as situações causadas por ele não eram previsíveis, assim como seus impactos no mundo.

Na minha opinião, eu acredito que seja um Cisne negro. Por mais que pudéssemos ter previsto a parte do vírus, e até mesmo trabalhado em uma vacina focada no tipo de vírus semelhante, já que o próprio COVID era conhecido antes dessa versão de 2019, ninguém poderia prever os impactos devastadores na economia mundial e muito menos na sociedade como um todo.

Esses são apenas os impactos de curto prazo. Nós não sabemos o que vai acontecer no futuro, quais os impactos no modelo de trabalho, na economia, e principalmente, na saúde física e mental das pessoas que passaram por todo esse cenário conturbado.

Como podemos lidar com esse cenário?

Frágil

A primeira forma de lidar é sendo frágil, como um vidro. Qualquer coisa pode quebrá-lo. Pessoas e empresas frágeis tendem a quebrar e passar por esse cenário caindo no caos. Sofrem com toda essa volatilidade porque estão buscando sempre estabilidade. São pessoas ou empresas que dificilmente se adaptam e que tem uma mentalidade fixa, não conseguem ver as oportunidades que surgem em meio às crises.

Empresas que faliram, restaurantes que fecharam, pessoas que perderam a estabilidade emocional e não conseguiram lidar com tudo isso, são exemplos de fragilidade. E não veja como uma questão pejorativa, muitas pessoas e empresas nunca sequer souberam que eram frágeis até esse momento.

Robustos

A segunda forma que podemos lidar com isso é sendo robustos, fortes, como uma pedra, que dificilmente muda seu estado, permanece igual. São pessoas ou empresas que agem de forma indiferente tanto no momento de tranquilidade quanto no caos.

Elas resistem até que haja uma ruptura, mas é necessária uma pressão externa muito forte para que isso aconteça.  Algumas empresas e restaurantes agiram assim, se mantiveram exatamente como estavam antes da pandemia. Não entenderam as mudanças que estavam acontecendo, até que suas reservas acabaram e suas contas continuaram chegando.

Resilientes

A terceira forma de agir é sendo resiliente. E para quem não sabe, a resiliência é uma propriedade da física onde se você deforma um objeto, após um tempo, ele volta ao seu estado original. Pensa naquele pato de borracha que a gente dá para criança ou aquele travesseiro de viscoelástico que se adapta bem ao seu corpo, mas quando tira o peso de cima ele volta para o formato normal.

São pessoas ou empresas que se adaptaram ao momento atual e acharam um jeito de trabalhar. De lidar com a pressão do dia a dia, cuidar da casa, manter a empresa funcionando. Mas quando tudo isso passar, vão voltar a fazer as coisas exatamente do mesmo jeito que antes.

Eu já vejo algumas grandes empresas trazendo seus funcionários de volta aos escritórios e voltando a sua operação exatamente como era antes, sem perceber que o mundo ao redor delas não é mais o mesmo.

Algumas coisas vão voltar a ser como eram, senão estaríamos assumindo que tudo que tínhamos antes era ruim, imperfeito e descartável. Mas nós sabemos que não é verdade, principalmente no que tange a nossa vida social.

Para algumas empresas, as mudanças estavam ali e era algo que elas iriam encontrar em algum momento, a pandemia só acelerou. Quando olhamos para as pessoas, muitas coisas mudaram, mas que não necessariamente precisam ser assim.

É claro que o ensino a distância é maravilhoso, poder estudar em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora. Mas será que para uma criança em formação isso é o ideal?

Não faz sentido a gente achar que todas as mudanças serão perenes. Mas também não adianta achar que vamos voltar exatamente como éramos antes.

Antifragil

Por último eu trago o comportamento antifrágil, ou seja, ao invés de simplesmente lidar com a situação, você aprende, melhora, se beneficia, se fortalece com o que está acontecendo e vê no problema uma oportunidade.

Como a Hidra, aquele ser da mitologia grega que quando se cortava uma cabeça nasciam duas.

No cenário atual, eu vi isso em empresas de bebidas que passaram a vender álcool gel, fabricas de biquinis que passaram a vender máscaras, restaurantes que começaram a praticar o delivery e cresceram seus negócios, empresas que perceberam que o home office traz diversos benefícios para o colaborador e para a própria empresa.

E lembra que eu falei que na crise de 2008 eu estava comprado em ações que caíram mais de 50%? Naquele momento se eu tivesse sido frágil eu teria amargado o prejuízo. No final, eu acabei trabalhando com opções, recuperei e aumentei o lucro em 2 anos do que eu tinha perdido.

Diferenças entre ser Frágil, Robusto, Resiliente e Antifrágil

Um ponto importante, eu não vejo que a gente assume um comportamento desses em todos os momentos da nossa vida. Podemos nos comportar de forma antifrágil na vida pessoal e frágil no trabalho, ou vice versa. O importante é que você avalie onde você poderia trabalhar para ser mais antifrágil ou minimamente resiliente, para não deixar que as mudanças ao acaso não impactem tanto na sua vida.

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