Rápido e Devagar, dois modos de pensar.

Rapido e Devagar

Nesta semana iremos falar sobre os tipos de pensamento e como eles influenciam na nossa tomada de decisão. O artigo se baseia nos conceitos de dois tipos de pensamento, Rápido e Devagar, desenvolvido pelo economista americano Daniel Kahneman.

Voltando às cavernas

Imagine à época das cavernas, que um pai sai com seu filho pela primeira vez e durante a caminhada eles encontram um animal feroz, que os ataca. A partir deste momento em diante, foi criada uma memória que faz com que você sabia que se encontrar novamente este animal feroz, você deverá se esconder.

Dias depois, quando eles estão recuperados, avistam o animal novamente na floresta e se escondem. Ao ver o animal indo embora continuam a caminhada. Até que, após alguns minutos um pássaro sobrevoa a cabeça do seu filho que desmaia subitamente.

Nesse momento, o cérebro cria outra informação. Aquele pássaro, ao passar por cima da cabeça de uma pessoa, consegue fazer mal a ela.

Desse dia em diante, ele decidiu que nunca mais irá se aproximar daquele animal feroz e muito menos do pássaro que voou por cima da cabeça do seu filho.

Todas as duas decisões foram tomadas pelo Sistema de Pensamento Rápido e Automático que temos. Um sistema menos lógico, mas muito importante.

Se ele tivesse usado o Sistema Lento e Lógico, provavelmente a decisão seria diferente. Ele teria entendido que a fera realmente deve ser evitada, mas que o pássaro não teve relação nenhuma com o desmaio do filho.

Por que não usamos apenas o sistema lento?

O sistema rápido, emocional e reativo é o que nos manteve vivos durante todos esses anos. Mesmo levando a assunções, como a de que um pássaro voando por cima das nossas cabeças pode nos fazer mal.

Se você ouve um barulho ou vê uma movimentação estranha, já fica alerta. Esse é o sistema rápido, te preparando para algo.

O grande problema é quando usamos o sistema rápido, quando deveríamos usar o lento e vice-versa. Isto acaba levando a preconceitos, decisões e ações erradas.

A pesquisa

Daniel Kahneman, em uma das suas pesquisas, selecionou dois grupos de trabalho. Para o primeiro grupo, ele perguntou:

– Você sabe se a maior árvore do mundo, é maior ou menor que 350 metros? Qual seria o seu chute sobre a altura?

Para o segundo grupo ele fez as mesmas perguntas, mas mudou a altura para 55 metros:

– Você sabe se a maior árvore do mundo é maior ou menor que 55 metros? Qual seria o seu chute sobre a altura?

O primeiro grupo, chutou 250 metros e o segundo 85 metros. Uma diferença enorme, não acha?

Isso aconteceu por um efeito chamado ancoragem.

Mas o que isso tem a ver com você e eu?

Sempre que não temos muita experiência ou informação sobre um determinado assunto, assumimos os fatos apresentados por fontes que acreditamos ser confiáveis. Sejam essas pessoas do nosso contexto, jornais, livros. Qualquer fonte.

Agora vamos tangibilizar esse conceito para você entender como ele impacta na sua vida. Você vê os jornais todos os dias falando que o número de leitos nos hospitais vem crescendo, que o isolamento, uso de máscara e vacinação são fundamentais para erradicar o Covid.

Por mais que você não saiba dizer se essas informações são corretas, elas são a sua âncora e baseado nelas que você vai tomar a sua decisão.

Porém, com essas notícias você descobre que um avião caiu; o número de roubos de celular aumentou; feminicídios etc. Notícias que acabam direcionando a sua atenção e criando âncoras que talvez te traga mais ansiedade, tiram sua paz e te deixam angustiado.

Esse é um exemplo de como usamos o nosso sistema rápido quando deveríamos usar o sistema lento. Isso é mais comum do que você imagina.

Imagine que um colega de trabalho comece a trazer seus problemas pessoais. Tais como: uma saúde debilitada, insatisfação com o salário, insatisfação com sua função. É comum que esses fatos se tornem uma âncora para a sua própria percepção, que vai te drenar energia e motivação e talvez te colocar em um cenário que pode de fato não ser uma realidade para você.

Nesse caso, temos que trabalhar com o entendimento dos fatos e a racionalidade.

O que você está ouvindo faz realmente sentido para você?

Isso nos leva a mais um conceito importante, o da aversão à perda. Nosso cérebro é naturalmente avesso ao risco. A maioria das pessoas prefere não perder 10 reais ao risco de ganhar 100.

Por isso, quando ouvimos notícias que podem nos trazer esse pensamento de perda, criamos âncoras nelas.

Se você fosse ao médico agora e ele dissesse que você tem 10% de chance de morrer fazendo uma cirurgia, como você se sentiria?

Provavelmente você iria se sentir mal, angustiado, ansioso, deprimido e preocupado. No seu foco está a hipótese de morrer.

Agora se ao invés disso ele te dissesse que você tem 90% de chance de sucesso na cirurgia? Estatisticamente os dois possuêm o mesmo significado, mas para o seu cérebro a âncora agora é outra, é a de sobrevivência.

Vamos a mais duas situações?

Um jogador de poker ganhou 10.000 dólares nas primeiras três rodadas e nas duas seguintes perdeu 2.000. Se ele usasse o pensamento lento e racional, provavelmente pararia de jogar e ficaria com os 8.000 ganhos. Porém, o pensamento de perda faz com que ele queira continuar jogando para se “recuperar”.

Outro mais comum ainda, você fez as compras do mês, cheio de besteiras, biscoitos, doces, salgadinhos e decidiu entrar em uma dieta. Mas você gastou dinheiro ali, como o que você pode fazer agora? E mesmo sabendo que vai contra a sua decisão e te fazendo mal você vai consumir para não perder dinheiro.

Desta forma que o nosso cérebro rápido funciona. Ele quer evitar a perda, o risco e o gasto de energia. Se usássemos o cérebro lento, nossas decisões seriam mais inteligentes e melhores para nós.

Olhe ao seu redor. Quantas roupas, papéis, pelúcias, eletrônicos antigos, você tem espalhados pela casa? Objetos sem uso e que você não se livra porque sabe que gastou dinheiro e não quer perder.

Quantas pessoas deixam de tomar a decisão de trabalhar em algo que vai dar mais prazer porque não querem perder os 40% do fundo de garantia, muitas vezes se sujeitando a coisas que as fazem infelizes.

Quantos relacionamentos abusivos não terminam simplesmente por não querer perder os anos investidos na construção do relacionamento, mesmo, no fundo sabendo que não terá um futuro diferente.

Agora fica aqui uma chamada de ação para você. Pare, pense de forma lógica, sem apego, o que tem na sua vida que não te traz mais benefício e comece a se livrar gradualmente. Traga mais tranquilidade e leveza.

Pare de consumir conteúdos que vão servir de âncora para pensamentos ruins. Afaste-se de pessoas corrosivas com pensamentos detratores e seja quem você tem direito de ser.

Todos nós nascemos com o direito de ser felizes. De aprender, ensinar e criar o quadro da nossa vida do jeito que queremos. A única pessoa que pode decidir como vai ficar esse quadro é você. Tome as rédeas da sua vida.

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