As fronteiras da liberdade de expressão

Liberdade de Expressão

Liberdade de expressão e respeito ao próximo

Há algum tempo tenho percebido que o espaço para conversar e dialogar tem aumentado cada vez mais. As pessoas parecem estar mais abertas a conversas. Mas ainda sim, existe aqueles assuntos que dividem opiniões e as vezes até causam brigas e discussões sem fim. Seja entre família, amigos, colegas de trabalho ou qualquer um que tenha uma opinião diferente. E muitas vezes a liberdade de expressão e o respeito ao próximo ficam perdidos dentro destas discussões

Eu sempre vi rixas por conta de times de futebol, opiniões diferentes sobre religião e política. Mas ultimamente, vejo que as pessoas estão mais infladas e muitas vezes, ultrapassado o respeito e individualidade. Se você não pensa como eu penso, então você é meu inimigo.

Toda essa polarização, independente do motivo, é irracional. Cada um de nós tem uma opinião baseada nos fatos e vivências que são individuais. Meus valores e experiências são diferentes do seu, assim como o meu time, minha religião e os meus pensamentos sobre a pandemia. Mas nada disso quer dizer que eles são melhores ou piores que os seus, são apenas diferentes.

Sou melhor

Pensar que um pode ser melhor que o outro me remete a momentos da história onde nações foram atacadas, raças e etnias quase desapareceram simplesmente porque uma se sentiu superior as demais.

Eu realmente creio que não existe mais espaço para esse tipo de pensamento. Mas o que alimenta isso?

Vou dar dois exemplos que vi recentemente, sobre como a opinião individual não respeitada pode criar cenários que eu diria que são minimamente desgastantes.

Há vagas

O primeiro cenário foi por conta de uma publicação que falava de vaga para negros. E aqui, um adendo, não defendo ou crítico a posição da empresa em relação a isso. Vejo grandes empresas do mercado aderindo a esse posicionamento e tentando, de acordo com as suas proposições, minimizar a desigualdade de oportunidades que existem para os negros.

De repente, quando olho para o celular vejo que tem mais de 200 mensagens. E cada uma expressando suas opiniões de forma bem contundente, desrespeitando totalmente o objetivo do grupo e os integrantes.

E aqui começo a minha reflexão sobre expressar a opinião. Para mim, expressar a opinião se trata muito mais de ouvir do que de falar. Quando você simplesmente vomita o que acha sem que haja espaço de reflexão e se torna reativo a qualquer posicionamento diferente do seu, você acaba com a liberdade de expressão. Seu posicionamento é praticamente ditatorial.

Nem sequer estou dizendo que qualquer um dos lados está certo. É apenas a forma como você se comporta, que permite ou não o diálogo, e que demonstra o respeito a liberdade de expressão.

Mas se você acha que isso acontece apenas por conta de questões raciais, cujo peso é enorme na nossa sociedade, saiba que infelizmente esse não é o caso.

Futebol, raça, política, religião, pandemia, jogos, redes sociais, condomínio, bicicleta e carros estacionados são os maiores vilões quando se trata de “iniciar uma treta”.

Estacionamento proibido

As pessoas estão hiper reativas, sejam em palavras ou em ações. Recentemente eu vi um vídeo de uma mãe que estacionou o carro um pouco para fora da garagem pois estava sozinha e precisava tirar as compras.

Quando de repente vem um pedestre. Ao invés de andar um metro para o lado, ou tentar entender por que o carro podia estar ali, ele pulou em cima do carro desta mãe, passando por cima e amassando todo o carro. Como se estivesse dizendo “você está errada de estar na faixa dos pedestres”.

Mas será que ele está mais certo fazendo isso? Um erro realmente justifica outro? Não né!

Não toque nesse assunto

Em outro momento na semana passada, conversando com uma amiga, ela me disse que não estava se sentindo bem, pois tinha passado por um cenário onde se sentiu tolhida de falar o que realmente pensava e fazia. Ela tinha recebido um direcionamento de não falar sobre assuntos polêmicos em reuniões de trabalho. E isso é muito mais comum do que a gente imagina, e não só apenas no trabalho.

Antes de falar um pouco mais sobre esse segundo cenário, vou lembrar que nesse momento estamos em um momento de pandemia, isolamento social. Muitas pessoas perderam parentes próximos e outras sentem crises de ansiedade só de pensar sobre o assunto.

O número de atendimentos psicoterapêuticos relacionados a transtornos de ansiedade e depressão, aumentaram bastante durante o período de pandemia.

Por mais cada um tenha sua opinião, seus valores, suas vivências e suas crenças, o contexto no cenário atual é comum a todos, independente de credo, cor, religião, escolaridade e classe social. O vírus neste caso é o menos preconceituoso de todos.

Contexto Atual

Dito isso, vou começar falando de como eu me senti no início da pandemia. No início, eu meio que surtei. Não queria ir à rua em dia nenhum e sob forma alguma. Não queria ter contato com ninguém que não estivesse dentro da minha casa. Todos os produtos que comprávamos, era limpos e só faltavam serem benzidos pelo papa, para que pudessem ficar limpos. Entendam, eu tinha acabado de perder meu pai e não saia da minha cabeça o medo de perder uma outra pessoa da minha família.

Hoje, depois de trabalhar bastante isso na minha cabeça, voltei a sair na rua e a fazer esportes. Percebi que é algo que muda a minha forma de pensar e que me deixa mais tranquilo e menos ansioso. Mas isso não quer dizer que deixo de tomar cuidado, pois mesmo saindo continuo com todas as recomendações, usando máscara, álcool gel e evitando aglomerações.

Agora vamos supor que o meu EU de hoje fosse conversar com o meu EU do início da pandemia. Será que um saberia entender o ponto de vista do outro?

E é exatamente esse paradoxo que eu quero trazer aqui, podemos ter opiniões diversas em momentos diferentes e isso não muda os nossos valores. Aceitar que as pessoas possam ter opiniões diferentes das nossas, não muda os nossos valores.

Respeitar os limites dos outros, não necessariamente representa uma quebra da liberdade de expressão. Às vezes é apenas uma proteção em um momento em que todos estão sensibilizados.

Ao mesmo tempo você deve pensar… “por que eu precisaria deixar de expressar a minha opinião, já que não estou efetivamente colocando ninguém em risco e nem sendo ofensivo ou contundente?”

Não há certo ou errado

Na minha opinião, não existe um certo ou errado. Essa temática não é dicotômica. Precisamos entender que estamos em um cenário atípico e cada vez mais teremos que lidar com situações como estas.

Então minhas dicas para qualquer uma das minhas versões, seja a de hoje ou a de antigamente seriam:

Se blinde

Se blinde. Não deixe que a opinião dos outros te influencie, sejam elas contundentes ou apenas um relato do que elas fazem. Não importa se os outros não fazem o que você faz ou o que você gostaria que eles fizessem. Essa expectativa é única e exclusivamente sua, então controle suas expectativas.

Pratique a empatia e alteridade

Empatia é se colocar no lugar do outro, entender o problema pelo olhar do outro e tentar pensar como o outro. Para isso você vai ter que tomar cuidado para não considerar na sua empatia os seus valores, crenças e vivências.

Alteridade quer dizer: entenda e aceite que somos diferentes e respeite isso, somos singulares. Você não pode criticar uma pessoa porque ela pensa ou age diferente de você, mas também não precisa aceitar tudo que os outros dizem como verdade absoluta, viva através da sua realidade.

Ausência de Julgamento

Deixe de lado o julgamento. Sempre que colocamos um tom no que o outro disse, estamos criando uma história, contada pela gente. A interpretação vai ser puramente nossa e não quer dizer que foi no sentido real que a pessoa tinha.

O ser humano, por conta da sua natureza de proteção e sobrevivência, tende a trazer a maioria das interpretações para o lado negativo. Isso é muito ruim, pois traz ansiedade e sentimentos de angústia, com medo de ser perseguido o tempo todo.

Já vi muita gente sofrer com isso simplesmente porque não se comunicou corretamente, usou sua interpretação e considerou verdade absoluta.

Escuta Ativa

E por último, pratique a escuta ativa. Ouça o que o outro tem a dizer. Seja questionador, mas sem ser cricri. Entenda e respeite a opinião e intenções do outro e seja aberto para dizer as suas. Busque um ambiente de respeito para que você saiba que será respeitado quando abrir suas colocações.

A maioria dos problemas que eu vivenciei e ainda vivencio nos dias de hoje, tem total relação com comunicação mal feita.

Lembre-se, comunicação é uma via de mão dupla. Não adianta você achar que disse uma coisa, se o outro lado não entendeu da mesma maneira. Cheque o entendimento e evite problemas!

 

E se você quer saber um pouco mais, sobre como lidar com pessoas com temperamentos e opiniões diferentes do seu, dê uma lida neste artigo.

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