Você sabe o que é Desamparo Aprendido?

S02E20 - Desamparo Aprendido

O post desta semana surgiu após assistir com meus filhos um episódio de “Eu e o Universo” (Brainchild), série da Netflix, que falava sobre motivação e abordou, de forma bem interessante, o Desamparo Aprendido.

O termo Desamparo Aprendido surgiu no final dos anos 60, quando Martin Seligman, e Steven Maier, psicólogos americanos, realizaram um estudo cujo objetivo era observar como a exposição prévia a um estímulo incontrolável poderia comprometer o nível de aprendizagem de um indivíduo.

Entendendo o Desamparo Aprendido

O primeiro estudo foi realizado com cachorros, que foram separados em dois grupos.

O primeiro grupo foi colocado em uma jaula, a qual estava conectada diretamente a eletricidade e que dava periodicamente, um choque nos cachorros.

Já o segundo grupo estava em uma jaula com as mesmas características de tamanho e material, com uma pequena diferença. Nesta jaula havia um dispositivo que permitia que os cachorros desligassem os choques.

Os cães ficaram por um tempo nas jaulas até estarem acostumados com aquele contexto. Depois deste período, Seligman os trocou de jaula.

A nova jaula possuía uma grade bem mais baixa, permitindo que os cães pulassem com facilidade.

Seligman reparou que os cães que foram expostos aos estímulos de choque de forma repetitiva e incontrolável, mesmo podendo, não se aventuraram a sair da sala. Por outro lado, aqueles que tiveram acesso ao dispositivo que desligava o choque, ao terem o primeiro contato com o estímulo rapidamente saíram da jaula.

Ou seja, o primeiro grupo “aprendeu” que não podia fazer nada e se acostumou com aquela situação que estava e não buscava mais solução.

Com o tempo esses cães diminuíram sua interação, passaram a comer menos, não brincavam e até pararam de se relacionar.

E como os seres humanos?

Mas é claro que os estudos não ficaram apenas em cães e passaram a ser realizados com seres humanos.

Em um desses estudos ele separou dois grupos de pessoas em uma sala. Ao invés de choques, o estímulo utilizado era um ruído muito alto.

O primeiro grupo não podia fazer nada, a não ser aceitar o ruído. Já o segundo grupo possuía um botão que desligava imediatamente o barulho.

Depois que os grupos já estavam acostumados com os cenários, cada um foi levado a uma sala onde havia uma alavanca para desligar o som.

O grupo que usou o botão, buscou entender o objetivo da alavanca e desligou o som. O segundo grupo, que se acostumou com o barulho e entendeu que nada poderia ser feito, sequer tentou puxar a alavanca para ver do que se tratava.

O que os cientistas aprenderam?

Com esses experimentos, os cientistas concluíram que uma situação que traz um estímulo aversivo, ou seja, algo que nos traz desprazer, repulsa, angústia ou raiva é suficiente para que, com o tempo e repetição, a gente se acostume com a situação e até considere que ela é imutável, como se não valesse a pena tentar. Como se o desânimo e a resignação passiva fossem a única alternativa.

Daí surgiu o termo Desamparo Aprendido, que se refere ao comportamento que acontece quando a pessoa carrega consigo estímulos repetidos e que geram sofrimento, tornando difícil evitá-los.

Se estes estímulos acontecem com frequência, o próprio corpo, na maior parte das vezes, não consegue suportar ou superar e pode ocasionar muitos problemas.

E o que acontece?

Começamos a nos sentir indefesos, fomentando estímulos negativos e com a sensação forte de desânimo e de desistência. Alguns estudos inclusive, apontam a depressão e ansiedade como causa/efeito deste cenário.

Principais Sintomas

Os principais sintomas do Desamparo Aprendido são:

  • Aceitação;
  • Frustração;
  • Baixa autoestima;
  • Dificuldade em dormir;
  • Desistência;
  • Inércia;
  • Insensibilidade à angústia.

Mas como desenvolvemos o Desamparo Aprendido?

Imagine o caso de uma criança, que não importa o quanto estuda, ele nunca tira a nota que o Pai ou Mãe gostariam que ela tirasse.

Esse estímulo negativo de não alcançar o que ela “deveria” alcançar, faz com que a criança comece a entender que nada do que ela fizer vai mudar essa situação, que simplesmente não está no controle dela.

Às vezes desistem de estudar! Desistem de uma profissão ou de um sonho, tudo por conta de um estímulo alheio ao controle deles.

Esta criança cresce com esse estímulo e se torna um adulto com baixa autoestima, frustrado, que não busca por desafios, pois sabe que não vai conseguir transpor.

Esse é só um exemplo, mas podemos desenvolver o desamparo aprendido em qualquer momento das nossas vidas.

Imagina que você esteja em um emprego que você não gosta, que te cause angústia, ansiedade. Porém, você sabe que precisa desse emprego porque tem que sustentar a sua família.

Com o tempo, você se acostuma com essa situação e entende que não há nada que se possa fazer para encontrar algo que te faça feliz.

Quando aceitamos o desamparo, acabamos aceitando a angústia, o sofrimento, a dor. É uma situação que gera uma cascata de impactos negativos na nossa vida.

O que podemos fazer então para não entrar nesse desamparo?

O primeiro ponto é entender que erros e fracassos fazem parte da nossa vida. Não vamos passar uma vida inteira acertando e não vamos passar errado.

O princípio da impermanência do Budismo, que eu já até falei em outro post, traz essa consciência. Tudo vai mudar o tempo todo. Nada é permanente. Nem a alegria e nem a dor.

Aprenda e entenda os seus erros. Seus erros não te definem e sim as atitudes que você tem diante deles.

Além disso, não se preocupe com aquilo que está fora do seu controle, e sim com aquilo que você tem controle, como seus atos, atitudes e hábito. Deixar que seus comportamentos sejam moldados por algo que você não pode mudar, só vai te trazer mais angústia e sentimento de desamparo.

A psicologia positiva, do psicólogo Martin Seligman, ajuda a entender que, da mesma forma que aprendemos com estímulos negativos e criamos hábitos e comportamentos, podemos fazer com estímulos positivos.

Segundo ele, existem 5 elementos que ajudam a promover essa visão positiva e estimulam a mentalidade de crescimento:

Emoções Positivas, Engajamento, Relacionamentos Positivos, Significado e Realização.

Mas esse já é assunto para outro post!

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