Conhecendo o seu cérebro: A teoria do Cérebro Trino

teoria do cérebro trino

Teoria do Cérebro Trino

Nesse artigo eu vou explicar um pouco sobre o funcionamento do nosso cérebro através da teoria do psiquiatra e neurocientista americano Paul McLean. Em 1970, Paul apresentou uma teoria, chamada de Teoria do Cérebro Trino, que mostra pela primeira vez nosso cérebro como uma estrutura dividida em 3 (três) partes distintas: Neocórtex, Sistema Límbico e Cérebro Reptiliano.

Assim como as demais teorias evolucionistas, pressupõe que o nosso cérebro evoluiu do mais primitivo, o cérebro reptiliano, ao mais  evoluído, Neocórtex.

cérebro trino

Para começar a nossa história, imagine que ha milhões de anos atrás o ser humano tinha um único objetivo de vida, sobreviver. Dessa forma, em um ambiente hostil, nosso instinto era de poupar energia para que pudéssemos atacar nossa caça ou predador e fugir.  Além disso, para ter mais chances de sobreviver nessa época, passamos a viver em sociedade, fato que perdura até os dias atuais.

Nossa necessidade de ser parte de um grupo e de ser aceitos é tão grande que ainda hoje vemos claramente grupos. Sejam de “crossfiteiros”, “maratonistas de séries”, “nerds”, “geeks”, atletas e até mesmo “reclamões”, continuando vemos grupos se formando. Assista o vídeo abaixo e veja como somos capazes de fazer coisas que não entendemos apenas para que não sejamos diferentes.

Se você acha que isso é impressionante sugiro que você assista ao documentário PUSH de Derren Brown no Netflix.  Nele você verá como a influência do que pensam da gente e da nossa necessidade de ser aceitos pode nos levar a ações catastróficas e irreversíveis.

Então, vamos conhecer cada um dos “cérebros” ?

Cérebro Reptiliano

O Cérebro Reptiliano é o mais instintivo dos cérebros, ele é responsável pela maioria das decisões e ações inconscientes do ser humano. Por exemplo, você já percebeu que não precisa pensar para comer? Ou então para controlar o seu batimento cardíaco ou respirar? Não precisamos porque isso acontece de forma natural e inconsciente.

A principal função do Cérebro Reptiliano, era nos manter vivos e evitar qualquer gasto de energia desnecessário. Isso fazia total sentido na época das cavernas, com predadores por todos os lados, mas não nos dias de hoje. Porém, esses instintos estão registrados no nosso cérebro e ativamos eles em diversas situações do nosso dia-a-dia.

Se você estiver em uma reunião e um cliente te ameaçar, mesmo que verbalmente, seus instintos são os mesmos, atacá-lo de volta. Em alguns casos extremos até um atacar fisicamente. Você também poder ter outra reação, como congelar por medo ou fugir dali para sair dessa situação. Tudo isso acontece de forma totalmente inconsciente.

Da mesma forma, se você estiver dirigindo, com sua família e de repente alguém te cortar, o seu instinto de sobrevivência vai ativar uma processo emocional que vai te levar a querer atacar de volta,  paralisar ou fugir,  não acreditando no que quase aconteceu.

Portanto, sob qualquer ameaça, o nosso cérebro reptiliano age de forma instintiva nos direcionando a estas opções, liberando uma bomba de adrenalina e cortisol que vão te dar mais energia para fugir ou atacar e te manter em estado de alerta o tempo todo.

Agora que você sabe como funciona o ser cérebro reptiliano, vamos entender duas ferramentas fundamentais que ele utiliza para evitar o gasto de energia.

Procrastinação

Por incrível que pareça, procrastinar é um instinto, algo inconsciente e que faz parte do nosso cerne. Assim, todo ser humano é naturalmente um procrastinador. O nosso cérebro entende que deixar de fazer uma atividade que ele julgue “desnecessária”  ou que não tenha relevância para nossa sobrevivência é sempre a melhor escolha.

Agora pense junto comigo. Ir a academia pra gastar energia é algo que o seu cérebro acha natural? E fazer dieta, deixando de absorver alimentos que nos dão energia ? Entende porque é tão difícil para algumas pessoas se adaptar a essas atividades e comportamentos?

Mas quando efetivamente a gente para de procrastinar? Quando aquela determinada tarefa se torna urgente. Se o seu médico falar que você precisa se exercitar pois está com risco de ter um problema cardíaco você irá se dedicar. O mesmo se aplica se você deixar um trabalho para a última hora.

Uma outra forma de acabar com a procrastinação é tornar sua ação prazerosa. Se você entender que aquilo te da prazer ou pode ajudar nos seus instintos de sobrevivência, você irá deixar de procrastinar. Mais para frente vamos falar como um hábito é formado.

Sabe quem foi um dos maiores procrastinadores ? Leonardo Da Vinci. Isso mesmo, por incrível que pareça, há relatos que contam histórias de que ele parava no meio das suas obras para fazer algo mais curioso ou prazeroso, como por exemplo pesquisar o formato da língua de um pica-pau. Que saber por quê?  Pela recompensa, pela sensação de prazer (descargas de dopamina) e de bem estar (descargas de endorfinas).

Hábitos

Ao contrário da procrastinação, a criação de hábitos serve para gerar um modo “piloto automático” para tudo aquilo que você costuma fazer como rotina. Na estrutura do Cérebro Reptiliano se encontra o gânglio basal, responsável pelo registro de hábitos. Esse assunto é longo e merece um artigo para só ele. Neste momento o que você precisa saber é que todo hábito tem um loop, composto por três etapas:

  1. Gatilho – O que efetivamente ativa o hábito. Por exemplo, imagine que você quer criar o hábito de remar durante a manhã. O seu gatilho pode ser o despertador ou calçar o tênis.
  2. Rotina – Efetivamente é a ação que você quer repetir. Neste caso remar durante 30 minutos.
  3. Recompensa – É algo que serve para que seu cérebro entenda que a sua rotina é algo positivo. Neste caso pode ser a própria liberação de dopamina por conta do exercício ou algo como tomar um açaí após a aula.

Eu quero que você visualize um campo de futebol. Em primeiro lugar você vai ver a grama toda da mesma altura, você vai caminhar de um lado ao outro e quando olhar pra trás você verá o campo da mesma maneira.  Agora faça o mesmo caminho repetidamente até que você deixe uma trilha. Essa trilha, na neurociência é chamada de neuroplasticidade, que é a capacidade do nosso cérebro de criar novas ligações sinápticas que permitem a criação de um novo hábito. Estudo mostram que são necessários pelo menos 21 dias consecutivos para a criação de um novo hábito.

Sistema Límbico

O segundo grupo de componentes cerebrais é chamado de Sistema Límbico ou cérebro emocional. Como o nome já diz ele é responsável por nossas emoções, pelo aprendizado, memória e pelo nosso comportamento social. Ele é extremamente importante na manutenção de neuro hormônios relacionados às emoções como por exemplo a Ocitocina, que nos traz a sensação de prazer.

Sempre que levamos o nosso pensamento a um momento passado (uma memória, por exemplo), as emoções relacionadas a ela ativam o nosso sistema límbico, da mesma forma  acontece com pensamentos futuros.

Isso é muito importante quando lidamos com questões como ansiedade, como apresentado no artigo Ansiedade o mal do século no contexto do mundo VUCA.

No sistema límbico há também uma área chamada Amigdala Cerebelar, responsável principalmente pela regulação dos nossos comportamentos agressivos e sexuais.

Sequestro da Amigdala

Existe um fenômeno chamado “sequestro da amigdala” que se refere ao fato de, em uma determinada situação de pressão, estresse ou até mesmo raiva, você reagir no impulso e de forma agressiva.

Imagine que você tenha tido um dia super estressante, está cansado, teve 6 reuniões desgastantes com clientes durante o dia, o seu chefe te pediu um relatório de última hora e você saiu do trabalho às dez da noite. Você chega em casa e a primeira coisa que ouve do seu marido ou esposa é “Você chegou tarde hein !”

Nesse momento antes que o estímulo chegue ao Neocórtex, área racional do cérebro, você é “sequestrado” pelo emocional e responde “Eu não tenho a vida fácil que você tem não!”. Basta esse momento para desencadear um processo que, dependendo do estado emocional do outro lado, pode se tornar uma grande discussão.

Pouco tempo depois vem a chamada “ressaca emocional”, onde o estímulo chega ao seu lado racional e você reflete sobre o que fez. Normalmente você percebe que exagerou na sua reação, mas neste momento já é tarde demais, porque palavras não voltam atrás.

Tudo isso acontece porque o nosso estímulo entra pelo Cérebro Reptiliano (instintivo) passa para o nosso Sistema Límbico (cérebro emocional) para chegar finalmente no Neocórtex (cérebro racional), o mais lento dos 3.

Por isso que se fala tanto em trabalhar a Inteligência Emocional. Tendo maior conhecimento e controle dos gatilhos e processos emocionais que ativam esse lado agressivo, permitem que você saiba lidar com tais situações de forma mais rotineira. Se quiser saber um pouco mais leia também o artigo Os 5 Pilares Fundamentais da Inteligência Emocional.

Neocórtex

Por fim mas não menos importante temos o  Neocórtex, presente nos mamíferos e principalmente nos seres humanos. Essa estrutura é a mais recente na nossa fisiologia. Tem como principal objetivo o raciocínio lógico, criatividade, imaginação, a solução de problemas. É ele que nos diferencia dos animais, por conta da capacidade de tomada de decisões utilizando fatores ambientais e variáveis.

É por causa dele  que somos capazes de ler, escrever e nos comunicar de forma verbal, características que foram fundamentais para o nosso convívio em sociedade e nossa evolução como espécie. O Neocórtex  é que nos permite ser capazes de aprender e criar ou transformar através do conhecimento adquirido. Dessa forma, é possível entender que a nossa fisiologia foi preparada para o aprendizado e para a criação. Quando nos limitamos não é uma questão de capacidade  e sim de mentalidade. Usamos o nosso Neocórtex para observação, analisar, refletir e principalmente inovar.

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