Quando o “rapidinho” ignora quem está do outro lado
Liderança empática também aparece nesses momentos: sabe aquela pessoa que claramente já deu o que tinha que dar naquele dia? Você olha e pensa: “Meu Deus… libera essa criatura.” A pessoa está visivelmente cansada, abatida. Às vezes, passou por uma situação pessoal complicada ou está naqueles dias em que tudo veio junto.
Aí chega o líder e fala: “Antes de você sair… a gente consegue conversar rapidinho…?” Rapidinho. Eu tenho um certo trauma dessa palavra no trabalho, porque “rapidinho” pode significar qualquer coisa entre cinco minutos e perder o resto da tarde.
E o mais curioso é que, muitas vezes, o líder não faz isso por maldade. Ele não acorda pensando: “Hoje eu vou acabar com o psicológico de alguém.” Não. Às vezes, ele só tá correndo porque tem uma entrega, uma reunião e gente cobrando ele também. Com isso, acaba entrando no modo automático: prazo, tarefa, status, e a pessoa que tá ali na frente dele vira mais um item da lista.
E eu fiquei pensando: quando alguém do seu time tá precisando respirar, você percebe? E, se percebe, consegue mudar o plano?
Porque uma coisa é você se considerar uma pessoa empática. Outra coisa é a sua empatia conseguir sobreviver a uma sexta-feira às quatro da tarde, com prazo estourando, três pessoas te chamando, enquanto você ainda não conseguiu nem tomar água direito.
Nesse momento, não é que a empatia suma, ela só vai ficando em segundo plano. Bem em segundo plano mesmo, porque o que tá na frente é o que grita mais alto.
E, quando isso vira rotina, não é que a pessoa deixe de ser empática. Ela só começa a operar em um modo em que tudo vira urgente. Como consequência, quando tudo vira urgente, fica muito fácil atropelar gente sem perceber.
A empatia precisa sobreviver aos dias mais corridos
É justamente aí que a liderança empática deixa de ser uma ideia bonita e começa a aparecer na prática. Quando está tudo tranquilo, é fácil prestar atenção nas pessoas. O teste acontece quando o prazo aperta, a agenda lota e várias coisas começam a acontecer ao mesmo tempo.
Oi, eu sou a Tati e esse é o Spoilers da Vida. Se você está chegando agora, seja muito bem-vindo!
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E hoje eu quero conversar com quem lidera equipe, mas também com quem já esteve do outro lado pensando: “Meu Deus, essa reunião precisava mesmo acontecer agora?” Porque provavelmente não precisava. Mas calma que a gente chega lá.
Liderança empática exige olhar além da entrega
Tem uma situação muito frequente quando alguém assume a liderança, principalmente quando essa pessoa é muito boa tecnicamente. Ela pensa mais ou menos assim: “Beleza. Eu entregava. Agora eu preciso garantir que o time entregue.”
E faz sentido. Aí começa: “Como tá essa tarefa?”, “Tem algum bloqueio?”, “Consegue entregar hoje?”, “Vamos marcar meia horinha?”. Daqui a pouco, a agenda parece um Tetris.
Beleza… a gente sabe que acompanhar o trabalho faz parte. Afinal, a empresa tem prazo, tem cliente e tem compromisso. Ninguém aqui tá propondo parar as entregas e abrir uma sessão de terapia toda vez que o dia for pesado.
O ponto é que, se você só olha para o status da entrega, começa a ficar cego pro resto, porque a tarefa não fica exausta. Tarefa não passa a noite no hospital, não briga em casa antes de entrar numa call e não recebe uma notícia péssima para, cinco minutos depois, precisar abrir a câmera e falar: “Bom dia, pessoal”. Gente faz isso.
E aí entra um negócio que o Daniel Goleman fala bastante quando trabalha inteligência emocional: empatia. Só que deixa eu traduzir isso porque, quando a gente fala “empatia”, às vezes parece uma daquelas palavras bonitas de bingo corporativo.
Na prática, liderança empática é bem mais simples: é você conseguir perceber a pessoa que tá na sua frente.
Perceber a pessoa antes de perceber a agenda
Porque um líder pode olhar uma situação e pensar: “Tenho uma reunião marcada com essa pessoa às quatro.” Outro pode olhar e pensar: “Tenho uma reunião marcada às quatro… mas ela tá em condição de fazer essa reunião hoje?” Olha que diferença pequena e enorme ao mesmo tempo.
“Pô, Tati, mas então agora eu tenho que cancelar tudo toda vez que alguém tiver num dia ruim?”
Não. Claro que não. Tem dia em que a conversa precisa acontecer porque o problema é urgente mesmo. O ponto é conseguir perceber qual é qual, porque tem muita coisa que se torna urgente só porque alguém ficou ansioso.
E isso acontece muito quando falamos de liderança empática. E olha… eu entendo, porque acompanhar dá uma sensação de controle. Só que, às vezes, você não tá gerando clareza, está apenas transferindo a sua ansiedade pro time. Assim, o líder fica um pouco menos ansioso, e cinco pessoas ficam mais. Muito bom!
Quando a ansiedade do líder vira urgência para o time
E o problema dessa ansiedade é que ela cria um ponto cego. A pessoa que pede perde totalmente a noção do que tá pedindo.
Se você curte cinema, tem uma cena de O Diabo Veste Prada que ilustra isso muito bem. Sabe aquela cena em que a Miranda manda a Andy conseguir o manuscrito de Harry Potter que nem tinha sido publicado ainda? É um pedido completamente absurdo, mas, para quem tá pedindo, parece só mais uma demanda da lista.
Na cabeça de quem pede, é só um “ajusta isso pra mim”. Só que, do outro lado, isso vira um caos para quem precisa executar.
E isso acontece dentro de empresa o tempo todo. Guardadas as proporções, tá?
Talvez seu chefe nunca tenha pedido um livro inédito do Harry Potter, mas ele pode mandar uma mensagem às cinco da tarde dizendo: “Pensei melhor e acho que a gente devia mudar toda a estratégia dessa proposta até amanhã de manhã.”
“Precisamos… por quê? Porque precisa mesmo? Porque o cliente antecipou? Ou alguém lá em cima fez uma pergunta e agora todo mundo entrou em pânico?”
Tem muita urgência que nasce assim. Primeiro, uma pessoa fica preocupada com um detalhe e passa a preocupação pra outra, que passa pra outra. Quando você vê, tem oito pessoas correndo desesperadas… e ninguém mais sabe exatamente do quê.
Poder pedir não significa precisar pedir agora
E aí entra uma diferença que eu acho bem importante: ter poder pra pedir uma coisa não significa que você precisa pedir aquela coisa naquele momento. Da mesma forma, estar na posição de líder e poder pedir qualquer coisa não significa que você deve pedir aquilo a qualquer momento.
Isso parece um detalhe besta, mas é onde mora boa parte da liderança empática, porque repassar a cobrança é fácil: você pede, o time corre. Agora, segurar a ansiedade, filtrar a demanda, olhar pro prazo e falar “Isso aqui espera até amanhã” exige segurança.
Além disso, tem duas coisas que, na minha visão, precisam andar de mãos dadas na gestão. De um lado, você se importar de verdade com a pessoa; do outro, ter coragem de ser direto e cobrar o que precisa ser cobrado, porque uma coisa não anula a outra. Dá para fazer as duas coisas.
Você pode falar hoje: “Hoje você não tá legal. Vai pra casa, descansa.” E amanhã mandar a real: “Bora sentar aqui, porque aquela entrega de ontem teve um problema e a gente precisa ajustar.”
Porque tem gente que acha que liderança empática significa passar a mão na cabeça e deixar passar tudo. Não é isso. Por outro lado, tem gente que acha que liderança forte é ficar apertando e pressionando todo mundo 100% do tempo. Também não é por aí.
Dá pra cuidar e dá pra cobrar. O segredo tá em entender qual conversa cabe em qual momento.
Liderança humana também depende do momento certo
Porque imagina a cena: a pessoa tá voltando hoje de uma crise horrível de enxaqueca, vê cinquenta mensagens pendentes e ainda tá tentando entender em que mundo tá. Aí o líder olha aquilo e pensa: “Maravilha! Voltou. Ótima oportunidade pra fazer aquele alinhamento de quarenta minutos.”
Sério mesmo?
Talvez o caminho mais inteligente seja só virar e falar: “Ó, dessas cinquenta coisas, tem duas que só você consegue destravar. Me ajuda nesses dois pontos e depois vai descansar, que amanhã a gente toca o resto.”
Pronto. O trabalho andou, a pessoa respirou e ninguém morreu. Às vezes, liderança empática é bem mais simples do que parece.
Quando a entrega acontece, mas a conta fica para depois
E tem um ponto que eu acho engraçado ou trágico, dependendo da semana: esse tipo de liderança de pressão funciona por um tempo.
A pessoa entrega, o cliente recebe, e aí o líder pensa: “Viu? Deu certo.”
Só que será que deu certo mesmo? Porque você viu a entrega, mas você viu o que aconteceu com a pessoa depois? Ela entregou e ficou exausta porque passou o fim de semana trabalhando?
E, muitas vezes, depois disso, já chega a notificação da próxima emergência.
O desgaste mental não vem só de um projeto difícil; vem de você nunca conseguir voltar para o estado de repouso. Por isso, a pessoa vive com a sensação de que tá sempre correndo de um prédio em chamas para o outro.
A gente olha pra quem continua entregando e acha que tá tudo sob controle só porque a tarefa foi concluída. Porém, ninguém aguenta trabalhar no limite o tempo todo.
Se o trabalho vira um incêndio atrás do outro, sem tempo nem de respirar entre uma entrega e outra, uma hora a cabeça trava de vez. E não é por falta de vontade, mas porque o corpo simplesmente não responde mais.
Como praticar liderança empática sem deixar de cobrar
Beleza, Tati… Como é que a gente melhora isso sem transformar gestão num bicho de 7 cabeças?
Eu pensei em quatro coisas bem simples para colocar a liderança empática em prática.
1. Antes de pedir, se pergunte: precisa ser agora?
Essa é quase boba de tão óbvia, mas às vezes o óbvio precisa ser dito.
Se você vai mandar mensagem pra alguém no fim do dia, para cinco segundos e pense: precisa ser agora? Precisa ser hoje?
Porque você pode até achar que tá só “deixando anotado”, mas quem recebe do outro lado quase sempre sente que precisa resolver naquela hora.
Se pode esperar até o dia seguinte, cara… guarda no rascunho ou programa o envio. Dessa forma, a sua necessidade de tirar aquilo da frente não precisa virar a urgência do outro.
2. Se o dia da pessoa não está normal, ajuste a sua expectativa
Se a pessoa passou por um perrengue pessoal, tá mal de saúde ou voltando de um dia difícil, ajuste o ritmo.
Nem precisa de textão ou grande discurso. É só chegar e alinhar: “O que é realmente indispensável pra hoje? Tem alguma coisa que só você consegue destravar?”
Depois, faz essa reflexão: isso precisa mesmo ser resolvido hoje ou dá pra esperar?
Porque quase tudo pode esperar se a pessoa do outro lado não tá legal. Nesse caso, você não está parando de trabalhar, só tá organizando o que é necessário sem sobrecarregar ninguém.
3. Cuidado com o super-herói
Toda equipe tem esse perfil: a pessoa que resolve qualquer bucha, fica até de noite, responde no domingo e apaga todos os incêndios. E aí todo mundo elogia: “Nossa, fulano salva demais.”
Ele salva mesmo.
Mas, se a sua operação precisa ser salva toda semana por um esforço heroico de alguém, talvez o problema seja a operação.
Imprevistos acontecem. Projeto dá errado, cliente muda de ideia, sistema cai. Faz parte.
O problema é quando esse heroísmo vira rotina. Afinal, se a equipe precisa ser heroica o tempo todo, ou tá faltando gente, o planejamento tá ruim ou a liderança tem medo de negociar prazo com o cliente.
4. E se você não for o líder, ainda dá pra ajudar
Às vezes, quem tá no time enxerga o desgaste do colega antes do líder.
Você vê um colega que tá mal e pode puxar a responsabilidade de forma simples: “Essa parte da apresentação eu posso tocar.”
Ou, então, pode até mandar uma mensagem no privado pro líder: “Olha, o fulano parece meio estranho hoje, acha que dá pra aliviar para ele?”
Pronto. Sem comprar briga, sem fazer discurso na chamada e sem transformar o Teams num tribunal. É só bom senso no dia a dia.
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Liderança empática também aparece na hora de cobrar
Então eu quero deixar uma pergunta: na próxima vez que você for cobrar um prazo ou mandar uma mensagem, você consegue parar cinco segundos e olhar além da entrega?
Perguntar mentalmente: “Como é que essa pessoa tá hoje? Isso precisa mesmo acontecer agora?”
Porque liderança empática tem muito dessas pequenas decisões. Ninguém vai bater palma porque você adiou uma reunião e ninguém vai te dar um troféu porque você falou: “Vai pra casa. Amanhã a gente resolve.”
Só que a pessoa lembra, o time percebe e, quando surgir uma urgência de verdade, a sua equipe vai junto com você. Não por medo ou pressão, mas porque sabe que você não faz isso por qualquer coisa.
Então, da próxima vez que vier aquele impulso de dizer “Rapidinho, antes de você sair…”, se pergunte: é urgente de verdade?
Porque, quase sempre, pode esperar até amanhã.
Até a próxima.
