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Quando alguém acredita em você antes de você mesmo: uma lição de Ted Lasso

Homem sendo recebido e encorajado por um líder em um ambiente corporativo, ilustrando confiança, crescimento profissional e novas oportunidades na carreira.

Tem uma coisa engraçada que acontece quando a gente recebe uma oportunidade grande.

Antes dela chegar, a gente pensa:

“Poxa… queria tanto que alguém enxergasse meu potencial.”

Aí alguém enxerga.

E a nossa primeira reação é:

“Tem certeza?”

É impressionante.

Você passa sei lá quanto tempo querendo ser reconhecido, querendo uma oportunidade e, quando ela aparece, em vez de comemorar, começa a se questionar:

“Será que eu sei o suficiente?”

“Que não estão esperando mais de mim do que eu consigo entregar?”

“Será que não confundiram meu nome com o de outra pessoa?”

Esses dias eu vi exatamente essa relação com uma oportunidade acontecendo numa série.

Só que depois eu vi acontecer na vida real também.

E aí lembrei que já tinha acontecido comigo.

Foi quando percebi uma coisa:

Talvez a pergunta “será que eu estou pronto?” nem sempre seja a pergunta certa.

Porque, dependendo de quem fez o convite, o próprio convite já é uma resposta.

E talvez o problema seja que a nossa insegurança fala tão alto que a gente não consegue enxergar o que está bem na nossa frente.

Ted Lasso, Roy e uma oportunidade que chegou antes da confiança

Eu comecei a assistir Ted Lasso agora.

Eu sei.

A internet inteira já assistiu, fez análise, escreveu textão, criou post sobre liderança e eu cheguei agora.

Mas comecei justamente porque já tinha visto muita gente usando a série como referência de liderança.

E fiquei curiosa:

“Gente, o que esse técnico tem de tão especial?”

Aí comecei a assistir.

E pronto.

Meu Deus.

Eu amo o Ted Lasso.

Eu quero colocar esse homem num potinho e levar pra casa.

É óbvio que algumas situações da série são exageradas. É uma série, né?

Mas tem umas coisas muito legais sobre liderança, pessoas, confiança e sobre a maneira como alguém pode enxergar potencial em outra pessoa antes que ela mesma perceba.

E um episódio que assisti essa semana me pegou justamente por isso.

Porque tem muito a ver com uma coisa que já aconteceu comigo e que, por coincidência, aconteceu com uma pessoa próxima de mim essa semana.

Então hoje tem spoiler de Ted Lasso.

Mas, principalmente, tem spoiler da vida real.

O problema: a gente acha que “estar pronto” vem antes

Tem um momento na série em que o Ted chama o Roy para voltar ao clube, agora como técnico.

E o Roy diz não.

Só que o mais interessante ali é que ele não está simplesmente pensando:

“Eu não estou pronto.”

É quase outra coisa.

O Ted consegue enxergar uma oportunidade para o Roy que o próprio Roy ainda não consegue enxergar para si mesmo.

E isso fica ainda mais claro porque, pouco depois, o Roy ajuda um membro do time.

Ele percebe o problema, consegue orientar e destrava uma coisa que ninguém estava conseguindo.

Ou seja:

Ele já estava mostrando que era capaz.

Só ainda não tinha se visto naquele papel.

E eu achei isso muito interessante porque acontece muito com a gente.

Às vezes, a oportunidade chega antes da nossa cabeça acompanhar.

Alguém olha para você e pensa:

“Você consegue fazer isso.”

Enquanto isso, você ainda está pensando:

“Será?”

A gente tem uma ideia meio estranha de que primeiro precisa se sentir completamente pronto e só depois aceitar alguma coisa maior.

Mas quando é que exatamente esse “pronto” chega?

Quem entrega esse certificado?

Você acorda numa terça-feira e recebe uma mensagem:

“Parabéns. A partir de hoje você está oficialmente preparado para liderar pessoas.”

Não existe.

Quando a oportunidade chega antes da confiança

Eu sei disso porque aconteceu comigo.

Quando fui convidada para assumir uma gerência, eu aceitei.

Só que, depois que a oportunidade se tornou real, veio o impacto.

E eu tive quase uma pequena crise de pânico.

Comecei a pensar em tudo:

responsabilidade, equipe, demandas, decisões, cobrança, problemas que agora iam parar na minha mesa.

E a minha cabeça começou:

“Meu Deus, eu não estou pronta para isso.”

“Isso é grande demais.”

“Eu não vou conseguir.”

O mais curioso é que, racionalmente, eu sabia que era capaz.

Mas saber e sentir são coisas completamente diferentes.

Eu sabia. Só não sentia.

E, quando a gente está com medo, a sensação de “eu não vou dar conta” fica muito mais alta, mesmo quando existe um monte de evidência mostrando o contrário.

Uma oportunidade difícil não significa falta de capacidade

Depois, aquela experiência realmente acabou sendo muito difícil para mim.

Mas não porque eu não consegui fazer o trabalho.

Na verdade, eu dei conta.

Até demais.

O problema foi que o ambiente, naquele momento, não era favorável.

Mas isso é tema para outro dia.

Hoje, olhando de longe, consigo separar melhor duas coisas que, naquela época, ficaram completamente misturadas.

Uma coisa era:

“Eu não estou preparada.”

Outra, completamente diferente, era:

“Esse ambiente não está me dando as condições necessárias.”

E essa diferença é importante.

Porque, às vezes, uma experiência ruim acaba virando uma falsa evidência de incompetência.

Quando, na verdade, competência nunca foi o problema.

Uma oportunidade pode ser difícil.

Pode vir num momento complicado.

Pode acontecer dentro de um ambiente ruim.

Nada disso significa automaticamente que você não tinha capacidade para ela.

O spoiler: talvez você não seja a melhor pessoa para julgar se está pronto

Aí vem a parte que mais me interessa nessa história.

Porque é muito fácil olhar para uma situação dessas e falar:

“Ah, síndrome do impostor.”

Só que eu acho que, às vezes, a gente usa esse termo rápido demais.

A pessoa recebe uma promoção e fica insegura:

“Síndrome do impostor.”

Fica nervosa numa reunião:

“Síndrome do impostor.”

Recebe uma oportunidade nova e pensa duas vezes:

“Síndrome do impostor.”

Claro que síndrome do impostor existe e já foi bastante estudada.

As psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes descreveram esse fenômeno observando pessoas muito competentes que, mesmo tendo bons resultados, ainda tinham dificuldade de reconhecer a própria capacidade.

Era gente que pensava:

“Foi sorte.”

“Uma hora vão perceber que eu não sou tão boa assim.”

Só que, quando estamos diante de uma oportunidade, existe outra pergunta que pode ser muito útil.

Quem enxergou essa oportunidade em você?

Quando você pensa:

“Eu não sei se estou pronta”,

está olhando para si a partir das suas inseguranças, dos seus medos e das coisas que ainda não sabe fazer.

Mas quem ofereceu aquela oportunidade pode estar olhando para outras coisas.

Seu histórico.

Seu jeito de trabalhar.

A maneira como você resolve problemas.

Como lida com pessoas.

O que já entregou.

Como reage quando as coisas dão errado.

Talvez essa pessoa esteja enxergando em você alguma coisa que, naquele momento, você ainda não consegue enxergar sozinho.

No caso do Roy, não é qualquer pessoa chegando e falando:

“Cara, você parece legal. Quer liderar um time?”

É o Ted.

Uma pessoa que acompanha ele.

Que viu como ele joga.

Como reage, conversa com os outros e influencia aquele grupo.

O Ted tem informação.

Às vezes, quem oferece a oportunidade enxerga algo que você ainda não vê

E foi isso que me fez pensar.

Quando alguém com critério te convida para uma responsabilidade maior, essa pessoa provavelmente já olhou para o seu trabalho, para o seu jeito de agir e enxergou ali capacidade suficiente para te chamar.

Enquanto você está pensando:

“Será que eu consigo?”

a outra pessoa talvez já tenha olhado para você e concluído:

“Você consegue.”

Quando a insegurança bate, é muito fácil esquecer dessa parte.

A gente fica tão ocupado olhando para o que falta, para o que ainda não sabe e para tudo que pode dar errado que quase não dá espaço para o olhar de quem escolheu a gente.

E existe uma diferença importante aqui.

Uma coisa é você simplesmente repetir para si mesmo:

“Eu sou incrível. Vai dar tudo certo.”

Outra é pensar:

“Essa pessoa conhece o trabalho. Conhece o que eu faço. E, mesmo assim, pensou em mim para essa oportunidade.”

Talvez isso não faça o medo desaparecer.

Mas já é um motivo muito melhor para não deixar a insegurança decidir sozinha.

Uma oportunidade parecida apareceu bem na minha frente

Talvez eu nem tivesse pensado tanto nisso se uma coisa não tivesse acontecido essa semana.

Um colega meu recebeu uma oportunidade para assumir uma equipe em outra área.

Ele ficou muito nervoso.

A carreira dele sempre foi muito técnica.

Agora, de repente, estava olhando para uma oportunidade muito mais ligada à gestão:

pessoas, conflitos, prioridades, decisões.

Então ele veio conversar comigo.

E começou exatamente com aquelas perguntas:

“Será que eu devo aceitar?”

“Será que eu vou dar conta?”

“É tudo novo.”

Enquanto ele falava, eu estava pensando:

“Cara, você não está enxergando o que quem te convidou provavelmente enxergou.”

Porque ele é uma pessoa que tem muito jeito com gente.

E em determinado momento eu falei:

“Cara, eu acho que você está mais preparado do que você imagina.”

Achei curioso porque, olhando para ele, eu conseguia ver várias razões pelas quais ele poderia dar conta.

Mas, quando aconteceu comigo, eu estava muito mais focada em tudo aquilo que ainda não sabia fazer.

É engraçado.

Com os outros, a gente consegue olhar o conjunto.

Com a gente, o medo costuma falar primeiro.

A armadilha da prontidão diante de uma nova oportunidade

Acho que existe também um erro na nossa definição de estar pronto.

Geralmente, a gente traduz “estar pronto” como:

“Eu já sei fazer tudo que esse novo papel vai exigir.”

Só que isso não existe em promoção.

Se você já domina absolutamente tudo daquela posição, provavelmente ela nem é crescimento.

É só uma troca de crachá.

Uma nova oportunidade, por definição, vai pedir coisas que você ainda não sabe fazer.

O Roy não precisava chegar como técnico sabendo tudo sobre ser técnico.

Meu colega não precisa sair de uma função técnica sabendo tudo sobre gestão.

Eu não precisava começar uma gerência já sendo uma gerente experiente.

A gente aprende uma parte antes.

Outra parte aprende fazendo.

E, para ser bem sincera, acho que a maior parte a gente aprende fazendo.

O problema é que costumamos comparar nosso primeiro dia numa função nova com alguém que já está há cinco anos naquela função.

Aí, claro, você parece despreparado.

Só que não está comparando duas pessoas no mesmo ponto da jornada.

Outra coisa que Ted Lasso acerta sobre liderança

Tem outra coisa que eu gosto no Ted.

Ele não olha apenas para aquilo que a pessoa já fez oficialmente.

Presta atenção na maneira como ela age.

No que já demonstra no dia a dia.

Às vezes, a pessoa nunca liderou uma equipe, mas é quem todo mundo procura quando precisa de ajuda.

Nunca coordenou um projeto, mas consegue organizar as coisas quando tudo começa a virar bagunça.

Nunca treinou ninguém oficialmente, mas é sempre ela que acaba ajudando quem acabou de chegar.

Essas coisas dizem alguma coisa.

E acho que o Ted enxerga muito disso no Roy.

Talvez ele ainda não tivesse ocupado aquele lugar.

Mas várias das características necessárias para assumir aquele papel já estavam ali há muito tempo.

Às vezes, a oportunidade simplesmente dá nome a uma capacidade que você já vinha demonstrando sem perceber.

O que fazer quando uma nova oportunidade chegar

Eu queria deixar algumas coisas bem práticas.

Porque não adianta terminar um artigo desses falando:

“Confia em você.”

É bonito.

Mas nem sempre ajuda.

Às vezes você simplesmente não está se sentindo confiante.

Então vale olhar para a situação de um jeito mais concreto.

1. Troque “eu estou pronto?” por “por que eles me escolheram?”

Quando surgir uma oportunidade, tente não começar fazendo uma lista de tudo que você ainda não sabe fazer.

Pergunte:

“Por que essa pessoa pensou em mim?”

E, se tiver abertura, pergunte isso para ela também:

“Por que você me chamou para essa posição?”

Às vezes, a resposta ajuda muito.

A pessoa pode dizer:

“Porque você se dá bem com a equipe.”

“Eu confio no seu jeito de trabalhar.”

“As pessoas te escutam.”

“Você consegue organizar situações difíceis.”

E aí você começa a olhar para coisas que, sozinho, talvez nem estivesse considerando.

2. Separe “não sei” de “não consigo aprender”

Essa parece pequena.

Mas muda muita coisa.

Você pode não saber fazer alguma coisa hoje.

Isso não significa que não consegue aprender.

Então, quando vier aquele:

“Eu não sei fazer isso”,

tente colocar um “ainda” no final.

“Eu ainda não sei fazer isso.”

Parece pouca coisa.

Mas muda completamente a maneira como você olha para uma oportunidade de crescimento.

3. Olhe bem para quem está te oferecendo a oportunidade

Também não é para sair aceitando qualquer convite só porque alguém lembrou do seu nome.

Vale pensar:

Essa pessoa conhece meu trabalho de verdade?

Ela sabe como eu funciono?

Está me chamando porque acredita que posso fazer um bom trabalho?

Ou porque ninguém mais quis pegar essa bomba?

Porque, convenhamos, tem empresa que chama de oportunidade aquilo que, na prática, é:

“Parabéns. Agora você tem o dobro da responsabilidade e praticamente a mesma vida.”

Então não é:

“Me chamaram. Tenho que aceitar.”

É olhar para quem fez o convite e pensar:

“Essa pessoa me conhece o suficiente para estar enxergando em mim alguma coisa que talvez eu ainda não esteja vendo?”

4. Não deixe o medo responder por você

Essa, para mim, é uma das mais importantes.

Você pode estar com medo e ainda assim ter capacidade para fazer aquilo.

As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.

Eu fiquei com medo quando aceitei a gerência.

O Roy também precisou de tempo para se enxergar naquele lugar.

Então, quando o medo aparecer, tente não tratá-lo como uma resposta.

Às vezes ele só está dizendo:

“Isso aqui é novo.”

“Você ainda não sabe exatamente como vai ser.”

“Existe alguma coisa importante em jogo.”

Tá bom, cérebro.

Recado recebido.

Mas quem decide sou eu.

Talvez você não precise acreditar sozinho

Talvez você ainda não se sinta pronto.

E, sinceramente, pode ser que essa sensação demore um pouco para chegar.

Porque existem coisas que a gente só entende depois que começa.

Você não precisa saber tudo antes.

Precisa ter alguma base para começar e disposição para aprender aquilo que vier no caminho.

Então, da próxima vez que surgir uma oportunidade maior e alguém que você respeita pensar em você, talvez valha esperar um pouco antes de responder àquela primeira pergunta:

“Será que eu dou conta?”

Olhe para quem te chamou.

Para o que essa pessoa conhece do seu trabalho.

Para aquilo que você já fez até aqui.

E tente entender por que, entre tantas pessoas, ela pensou em você.

Porque, às vezes, enquanto você ainda está tentando decidir se consegue, quem te escolheu já viu motivos suficientes para acreditar que sim.

Talvez você não precise ter toda a confiança do mundo naquele momento.

Às vezes, dá para começar emprestando um pouco da confiança de quem te escolheu, até que a sua própria confiança consiga acompanhar.

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