O que orienta as decisões de um líder?
As quatro virtudes da liderança ajudam a responder uma pergunta que eu acho que todo líder deveria se fazer de vez em quando.
E não é se o time gosta de você, se você está entregando resultado ou se é um bom gestor.
São perguntas importantes. Mas existe uma que, para mim, vem antes de todas elas:
Quando eu tenho poder para decidir, o que orienta as minhas decisões?
Porque liderar é isso.
Além de reuniões, status e planejamento, liderar é decidir.
Decidir prioridades, quem recebe uma oportunidade, quando cobrar e quando proteger, quando falar e quando ficar em silêncio. Principalmente, escolher o que fazer quando nenhuma das opções parece boa.
É aí que entra um conceito que existe há mais de dois mil anos: as quatro virtudes fundamentais — sabedoria, coragem, justiça e temperança.
Elas tratam de algo muito atual: a forma como uma pessoa age quando precisa fazer escolhas.
É por isso que as quatro virtudes da liderança continuam sendo discutidas até hoje. Elas nos ajudam a refletir sobre nossas decisões e, principalmente, sobre as consequências que essas escolhas provocam na vida de outras pessoas.
E pouca gente faz tantas escolhas que afetam outras pessoas quanto um líder.
Mufasa, Scar e as quatro virtudes da liderança
Como eu adoro trazer cultura pop para as nossas conversas, fiquei pensando em um personagem que consegue colocar essas quatro virtudes em cena de um jeito bem simples.
Dessa vez, não é o Ted Lasso.
É o Mufasa.
Em O Rei Leão, ele não está ensinando o Simba apenas a ser rei. Está mostrando o que significa ter poder e responsabilidade sobre outras pessoas.
Quando fala sobre o ciclo da vida, sobre respeitar os outros animais, sobre saber a hora de agir e também a hora de ouvir, há muito dessas quatro virtudes ali.
A presença do Scar deixa esse contraste ainda mais claro.
Scar também entende de poder. Sabe observar e esperar o momento certo. O problema não é falta de inteligência, mas o que ele faz com aquilo que sabe.
Talvez seja justamente aí que essa conversa sobre liderança fique interessante.
Afinal, liderança tem muito menos a ver com cargo ou framework da moda e muito mais com a forma como você decide quando tem poder para decidir.
Oi, eu sou a Tati, e esse é o Spoilers da Vida.
Se você está chegando agora, seja muito bem-vindo!
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Sabedoria: entender antes de decidir
Vamos começar pela sabedoria.
Aqui, sabedoria não significa saber tudo, ser a pessoa mais técnica da sala ou ter resposta para qualquer pergunta.
Na filosofia grega, existe uma palavra interessante: phronesis, que costuma ser traduzida como prudência, discernimento ou sabedoria prática.
É a capacidade de olhar para uma situação e perguntar:
O que está realmente acontecendo aqui?
Parece simples, mas não é. Principalmente quando você está liderando.
Um líder recebe informações o tempo inteiro.
Alguém diz que a entrega está atrasada. Outra pessoa afirma que a arquitetura está ruim. Há quem diga que o problema é de processo, que falta gente ou prioridade. E sempre tem alguém garantindo que está tudo bem.
Muitas vezes, todo mundo está certo, só que olhando para partes diferentes do mesmo problema.
Entre as quatro virtudes da liderança, a sabedoria é aquela que nos convida a entender antes de agir.
Talvez sua maior contribuição esteja justamente em evitar que o líder reaja à primeira versão que chega.
Antes de decidir, vale investigar, perguntar, entender o contexto e separar sintoma de causa.
Imagina que uma pessoa do seu time começa a render menos.
É muito fácil concluir que ela está desmotivada, acomodada ou precisando de cobrança.
Só que essa pessoa pode estar bloqueada, trabalhando em algo para o qual não tem contexto ou acumulando responsabilidades. Talvez exista um conflito no time. Pode até ser que o problema seja você.
Sabedoria é conseguir parar antes do julgamento e ter a humildade de admitir: talvez eu ainda não tenha informação suficiente para decidir.
Muitas vezes, o líder não erra porque não sabe o que fazer. Erra porque decidiu antes de entender.
Só que tem um detalhe.
Saber o que precisa ser feito não significa necessariamente fazer.
É aí que entra a segunda virtude.
Coragem: agir mesmo quando é desconfortável
A gente romantiza a coragem.
Quando se fala nisso, parece que estamos falando de grandes atos ou decisões extraordinárias.
Na liderança, porém, ela aparece de um jeito bem menos cinematográfico.
Na prática, as quatro virtudes da liderança não aparecem apenas nas grandes decisões. A coragem, por exemplo, costuma ser necessária justamente naquelas situações desconfortáveis que fazem parte da rotina.
Coragem é chamar para uma conversa aquela pessoa com quem você está adiando falar há três semanas.
Também é dizer ao seu chefe que o prazo que ele quer não é possível.
Às vezes, significa admitir para o time que você tomou uma decisão errada ou simplesmente dizer: “Eu não sei”.
Pode ser cancelar um projeto em que você investiu meses porque percebeu que ele não faz mais sentido.
Ou defender alguém quando essa pessoa não está na sala.
A coragem de dar uma notícia ruim cedo
Existe uma forma de coragem que eu considero especialmente importante na liderança: dar uma notícia ruim cedo.
Nas organizações, quanto pior a notícia, mais devagar ela costuma subir.
As pessoas tentam resolver antes, ganhar tempo ou deixar a mensagem mais bonita. Quando a informação chega a quem pode decidir, muitas vezes já é tarde.
Por quê? Por medo da reação, de parecer incompetente, de decepcionar ou de ser responsabilizado.
Nessas horas, o comportamento do líder faz muita diferença.
O time aprende muito mais com a reação dele do que com o discurso sobre transparência.
Quando alguém traz um problema e você explode, a equipe aprende a esconder os problemas.
Se uma decisão é questionada e você interpreta isso como resistência, as pessoas passam a evitar perguntas.
Já quando surge um erro e a primeira reação é procurar um culpado, todo mundo aprende a se proteger em vez de colaborar.
Tem uma ideia antiga que resume bem isso: quando você pune o mensageiro, deixa de receber mensagens.
E isso é muito sério em liderança.
A coragem não se resume ao que o líder faz. Ela também aparece no ambiente que ele cria para que outras pessoas consigam agir com coragem.
Mas coragem sozinha também é perigosa. Afinal, dá para ser extremamente corajoso e extremamente injusto.
Justiça: considerar o contexto sem perder o critério
A terceira virtude é a justiça.
Ao pensar nas quatro virtudes da liderança, talvez essa seja uma das mais difíceis de praticar.
Ser justo não significa tratar todo mundo exatamente da mesma forma. É preciso considerar o contexto.
Uma pessoa nova talvez precise de mais acompanhamento; alguém experiente, de mais autonomia.
Quem está passando por um momento difícil pode precisar de flexibilidade. Já quem repete um comportamento inadequado precisa de uma conversa mais firme.
Liderar é equilibrar tudo isso o tempo todo.
Portanto, tratar as pessoas com justiça não significa fazer exatamente a mesma coisa com todo mundo. Significa considerar o contexto sem perder o critério.
Há uma parte particularmente difícil: ser justo quando você gosta mais de algumas pessoas do que de outras.
A gente tem afinidade com quem pensa parecido, com quem se comunica melhor, com quem tem mais química com a gente.
O problema começa quando essa afinidade influencia decisões profissionais.
Quem está mais perto recebe os melhores projetos. Quem fala mais passa a ser visto como quem entrega mais. E quem trabalha até tarde parece mais comprometido do que quem termina no horário.
Também acontece quando alguém tecnicamente excelente ganha licença para tratar mal os outros porque “entrega muito”.
Aí a coisa começa a ficar complicada.
Justiça exige separar preferência pessoal de decisão profissional. Isso é difícil porque a gente quase nunca percebe os próprios vieses enquanto eles estão acontecendo.
Por isso, a justiça depende da sabedoria.
E também da quarta virtude: temperança.
Temperança: o autocontrole de quem lidera
Eu acho que temperança é a virtude mais subestimada da liderança.
Ela tem a ver com autocontrole: a capacidade de não ser governado pelo próprio impulso.
Significa sentir uma emoção sem deixar que ela tome a decisão por você.
A temperança completa o conjunto das quatro virtudes da liderança porque ajuda a impedir que nossas emoções assumam o controle das nossas escolhas.
Isso pesa ainda mais para quem lidera, porque a liderança amplifica emoções.
Se você está ansioso, irritado ou inseguro, o time percebe.
Quando a insegurança aparece, muitas vezes você começa a controlar mais: pede mais status, marca mais reuniões, quer acompanhar cada detalhe e chama isso de gestão. Às vezes, é só ansiedade.
Um líder ansioso pode transformar o time inteiro em uma extensão da própria ansiedade.
Ele pressiona uma pessoa, que pressiona outra. De repente, dezenas de pessoas estão trabalhando sob pressão porque uma só não conseguiu administrar o próprio medo.
Temperança é sentir a pressão sem simplesmente repassá-la.
Diante de uma mensagem ruim, significa não responder no impulso. Em vez de acusar, perguntar. Ao ouvir uma crítica, resistir à vontade de montar uma defesa imediatamente.
Uma das maiores demonstrações de temperança é controlar o ego, que pode aparecer de maneiras bem sutis: na necessidade de estar certo, na dificuldade de mudar de opinião, na vontade de ter a última palavra ou na resistência em aceitar uma ideia melhor que veio de alguém mais júnior.
Às vezes, tudo se resume à dificuldade de dizer: “Você tinha razão”.
Temperança é lembrar que o papel do líder não é ganhar discussões, mas criar condições para que boas decisões sejam tomadas.
E, às vezes, a melhor decisão vem justamente de alguém que não é você.
Como as quatro virtudes da liderança funcionam juntas
Agora vem uma parte importante: essas quatro virtudes não funcionam muito bem separadas.
Imagina alguém com muita coragem e pouca sabedoria.
Essa pessoa pode tomar decisões rapidamente, enfrentar conflitos e assumir riscos. Mas talvez esteja correndo na direção errada. Nesse caso, a coragem pode virar imprudência.
Agora pensa em alguém com muita sabedoria e pouca coragem.
Ela entende o problema e sabe o que precisa ser feito, mas adia. Evita o conflito, espera mais um pouco e, quando percebe, perdeu o momento.
A sabedoria vira conhecimento que nunca se transforma em ação.
Justiça sem temperança também pode dar problema.
Você pode estar certo sobre o que precisa ser dito e completamente errado na forma como passa a mensagem. Um feedback necessário, por exemplo, pode ser dado de um jeito agressivo.
Mesmo defendendo uma ideia justa, é possível deixar a raiva conduzir a conversa.
Já a temperança sem coragem pode virar passividade. A pessoa até acha que está “escolhendo suas batalhas”, mas, na verdade, está evitando uma conversa difícil.
Eu gosto de pensar assim:
A sabedoria mostra o caminho, a coragem faz você andar, a justiça define como você trata as pessoas no meio do caminho, e a temperança impede que você se perca de si mesmo ao longo dele.
As quatro virtudes da liderança em uma situação real
Vamos trazer isso para uma situação que, com certeza, já aconteceu no seu dia a dia.
O time tem uma entrega importante, faltam duas semanas e você percebe que não vai dar tempo. Como as quatro virtudes aparecem aí?
A sabedoria pergunta o que realmente está acontecendo. O problema é capacidade, escopo, dependência, complexidade ou uma estimativa ruim?
Com coragem, você reconhece que é preciso falar disso agora, e não na véspera da entrega ou apenas quando alguém perguntar.
A justiça ajuda a entender as responsabilidades sem transformar a conversa em uma caça aos culpados. O time pode ter errado, você pode ter aceitado um prazo impossível, ou outra área pode não ter entregado uma dependência. Provavelmente, a responsabilidade é compartilhada.
Já a temperança lembra: não transforme a sua ansiedade em pressão desnecessária sobre todo mundo.
O problema continua lá. O prazo também.
Mas a forma como o líder reage muda completamente a situação.
Poder: quanto maior a responsabilidade, maior o desafio
Tem outra coisa que eu acho importante trazer para essa conversa.
Quanto mais você cresce, mais poder acumula: influencia promoções, salários, projetos, visibilidade, avaliações, contratações e demissões.
O problema é que o poder reduz a quantidade de pessoas dispostas a dizer que você está errado.
Quando você é júnior, muita gente te corrige. Ao se tornar líder, esse número diminui. Como gestor de gestores, diminui ainda mais.
Quanto mais poder, mais fácil fica criar ao seu redor uma realidade em que todo mundo concorda com você.
Por isso, as quatro virtudes da liderança talvez se tornem ainda mais importantes conforme você cresce.
Chega uma hora em que você precisa criar mecanismos para ouvir coisas que ninguém mais está confortável em te dizer.
Pode ser alguém de confiança, uma pergunta que você faz antes de tomar decisões importantes ou simplesmente o hábito de parar e pensar:
“O que eu não estou enxergando?”
Liderança quando ninguém está olhando
Eu acho que a liderança aparece mais nas pequenas decisões do que nos grandes discursos.
Na forma como você fala de quem não está presente, como reage quando alguém erra e como distribui oportunidades.
São essas pequenas decisões que vão mostrando às pessoas quem você é.
O cargo vem da organização. A autoridade pode vir da estrutura. Mas a confiança se constrói decisão por decisão.
Quatro perguntas para tomar decisões melhores
Aqui vai um exercício simples para quando você estiver diante de uma decisão difícil.
As quatro virtudes da liderança podem ser traduzidas em quatro perguntas que ajudam a avaliar nossas escolhas antes de agir.
Sabedoria: Eu realmente entendi o problema?
Coragem: Estou evitando fazer alguma coisa porque tenho medo da reação?
Justiça: Essa decisão é justa com as pessoas que ela afeta?
Temperança: Meu ego, minha ansiedade ou minha raiva estão influenciando essa decisão?
Talvez você não encontre uma resposta perfeita. Aliás, a liderança raramente oferece respostas perfeitas.
Mas, só de fazer essas quatro perguntas, a gente já consegue tomar decisões um pouco melhores e, principalmente, perceber por que estamos tomando aquela decisão.
Encerramento: que tipo de líder você escolhe ser?
Tem muito conteúdo sobre liderança por aí: frameworks, métodos, livros, cursos, ferramentas e modelos.
Muita coisa é útil. Mas eu acho que, antes de tudo isso, existe algo que vem primeiro.
Você pode conhecer um monte de técnicas. Só que, em algum momento, vai aparecer uma situação em que nenhuma dessas ferramentas vai dizer exatamente o que deve fazer.
E aí, meu amigo, é você, com seu julgamento, sua coragem e suas escolhas.
Talvez seja por isso que as quatro virtudes da liderança continuem tão atuais, mesmo depois de mais de dois mil anos.
Sabedoria. Coragem. Justiça. Temperança.
A liderança não aparece só quando você está falando sobre liderança. Ela se revela quando precisa decidir algo que afeta outras pessoas.
Talvez essa seja a ideia que mais fica para mim depois de tudo isso: você pode ter poder, mas não está acima das consequências das suas escolhas.
Mufasa tenta ensinar isso ao Simba.
No fundo, é o que essas quatro virtudes estão tentando nos lembrar também: liderar é saber que suas decisões afetam outras pessoas e escolher o que fazer com esse poder.
Porque, no fim, é nessas escolhas que a gente descobre, de verdade, que tipo de líder é.
