O Poder Muda as Pessoas ou Apenas Revela Quem Elas São? A História de Nate em Ted Lasso
O que Ted Lasso pode nos ensinar sobre promoções, liderança e o risco de dar autoridade a quem ainda não está preparado para exercê-la.
Tem uma frase que repetimos quase automaticamente quando falamos sobre dinheiro, status, influência ou liderança:
“O poder corrompe.”
E existem bons motivos para acreditar nisso.
Todos nós já vimos alguém mudar depois de receber uma promoção. Uma pessoa que parecia acessível começa a se comportar de outra forma. Quem antes ouvia passa a querer ser ouvido. Da mesma maneira, alguém que reclamava de determinados comportamentos começa, curiosamente, a reproduzi-los quando ocupa uma posição diferente.
Mas há uma pergunta que talvez seja mais interessante:
Será que o poder realmente muda as pessoas?
Ou será que ele apenas retira alguns dos limites que antes impediam determinados comportamentos de aparecer?
Comecei a pensar sobre isso assistindo a Ted Lasso.
Para quem ainda não viu a série — pequenos spoilers a partir daqui — Ted é um treinador de futebol americano que deixa os Estados Unidos para comandar um time de futebol na Inglaterra, mesmo entendendo muito pouco do esporte.
No entanto, Ted Lasso nunca foi realmente uma série sobre futebol.
No fundo, é uma série sobre pessoas.
Sobre confiança, insegurança, relacionamento, reconhecimento, liderança e, principalmente, sobre o que acontece conosco quando somos colocados em situações que revelam aquilo que temos de melhor e também aquilo que temos de pior.
Poucos personagens representam isso tão bem quanto Nate.
Antes do poder, Nate queria ser visto
Quando conhecemos Nate, ele praticamente faz parte do cenário.
Ele trabalha nos bastidores do clube, ocupa uma posição de pouco prestígio e frequentemente parece passar despercebido pelas pessoas ao redor.
Só existe um detalhe importante:
Nate é muito competente.
Ele conhece profundamente o futebol, enxerga padrões, identifica problemas que passam despercebidos e consegue propor estratégias que ajudam o time.
Portanto, capacidade técnica nunca foi o problema.
Existe, porém, uma diferença enorme entre ser invisível e se sentir invisível.
Nate se sente invisível.
Mais do que reconhecimento profissional, ele quer provar que tem valor. Quer mostrar que entende do jogo e, sobretudo, conquistar um espaço que acredita merecer.
Não há necessariamente nada de errado nisso.
Afinal, reconhecimento é importante.
O problema surge quando o nosso senso de valor passa a depender exclusivamente da validação que recebemos dos outros.
Nesse caso, conquistar espaço deixa de ser suficiente.
Depois disso, torna-se necessário continuar provando que aquele espaço é nosso.
É justamente aí que a trajetória de Nate começa a ficar interessante.
Finalmente, ele deixa os bastidores.
A partir desse momento, passamos a observar o que acontece quando alguém que viveu durante muito tempo se sentindo pequeno recebe poder.
O poder como amplificador
Conforme Nate ganha espaço dentro da comissão técnica, alguma coisa começa a mudar.
Ou talvez seja mais correto dizer:
alguma coisa deixa de ser contida.
Agora suas ideias são ouvidas, ele recebe reconhecimento e passa a exercer influência.
Além disso, ganha algo que antes praticamente não tinha: autoridade.
Com isso, alguns comportamentos que apareciam de maneira discreta começam a ocupar mais espaço.
A arrogância se torna mais evidente, enquanto a maneira como ele trata algumas pessoas também muda. Aos poucos, sua dificuldade em lidar com quem considera inferior fica mais clara.
Ao mesmo tempo, aquela necessidade de provar o próprio valor encontra algo que antes não existia:
poder para fazer isso.
O mais interessante é que Nate não deixa de ser competente.
Pelo contrário, ele continua tendo boas ideias, entende de futebol e permanece estrategicamente brilhante em vários momentos.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da história.
Competência técnica não desaparece quando o comportamento de alguém começa a se tornar um problema.
Uma pessoa pode entregar resultados extraordinários e, ainda assim, ser uma péssima liderança.
Também pode conhecer profundamente o negócio, resolver problemas que ninguém consegue resolver e ser uma referência técnica.
Mesmo assim, pode destruir um ambiente quando recebe autoridade sobre outras pessoas.
Por isso, esse é um risco que muitas empresas ainda subestimam.
A promoção não cria caráter
Existe uma lógica bastante comum no mundo corporativo:
“Essa pessoa é excelente tecnicamente. Está na hora de promover.”
O raciocínio parece natural.
A pessoa entrega resultados, conhece o negócio, resolve problemas e demonstra domínio técnico.
Consequentemente, a liderança passa a parecer o próximo passo.
Só que existe um problema nessa lógica:
liderança não é simplesmente o próximo nível da competência técnica.
Quando alguém deixa de ser responsável apenas pelo próprio trabalho e passa a exercer influência sobre outras pessoas, o trabalho muda completamente.
Nesse momento, entram em cena competências diferentes.
É preciso saber ouvir.
Também é necessário ter autocontrole, empatia e capacidade de dar feedback.
Além disso, uma liderança precisa receber críticas, dividir crédito e admitir os próprios erros.
Talvez uma das habilidades mais difíceis seja outra:
conviver com pessoas que são melhores do que você em determinadas coisas sem enxergá-las como uma ameaça.
Existe ainda uma competência fundamental:
ter poder sem precisar provar o tempo inteiro que possui poder.
Pessoas seguras raramente precisam diminuir alguém para se sentirem maiores.
Por outro lado, quando alguém precisa constantemente demonstrar que é mais inteligente, mais importante ou mais competente, pode existir uma insegurança sustentando esse comportamento.
A autoridade, nesse contexto, pode amplificar essa insegurança.
Aquilo que antes aparecia apenas como ressentimento, competição ou necessidade de aprovação começa, então, a influenciar decisões, relações e oportunidades.
Em outras palavras, talvez o poder não crie essas características.
Talvez apenas dê a elas mais espaço para aparecer.
O problema é que as empresas costumam descobrir isso tarde demais
Grande parte dos processos de promoção observa coisas relativamente fáceis de medir:
resultado, produtividade, conhecimento, experiência, capacidade de execução e solução de problemas.
Todos esses critérios são importantes.
No entanto, existe outra pergunta que deveria receber a mesma atenção:
O que acontece quando essa pessoa recebe poder sobre outras pessoas?
Alguns sinais podem aparecer muito antes da promoção.
Vale observar, por exemplo, como alguém trata profissionais mais juniores.
Também importa perceber como essa pessoa reage quando é contrariada ou quando outra pessoa recebe crédito por uma ideia.
Além disso, a maneira como alguém lida com os próprios erros diz bastante.
Ainda assim, talvez um dos sinais mais reveladores seja outro:
como essa pessoa trata quem não tem nada a oferecer em troca.
Essas pequenas situações do cotidiano ajudam a mostrar como alguém se relaciona com poder, status e hierarquia.
Em muitos casos, podem revelar até mais do que uma longa sequência de resultados excelentes.
Isso acontece porque liderança não envolve apenas aquilo que conseguimos entregar.
Envolve também o que acontece com as pessoas ao nosso redor enquanto entregamos.
O verdadeiro teste do poder
Gosto de pensar no poder como uma espécie de teste.
Quando temos pouca autoridade, precisamos negociar, convencer e esperar.
Além disso, existem limites muito claros para aquilo que conseguimos fazer.
Quando recebemos poder, porém, algumas dessas barreiras desaparecem.
É justamente aí que nossas escolhas ficam mais interessantes.
Imagine, por exemplo, que agora você possa ignorar alguém sem sofrer qualquer consequência. O que faria?
Se tivesse condições de constranger uma pessoa sem ser questionado, usaria essa possibilidade?
Quando uma ideia boa viesse de outra pessoa, dividiria o reconhecimento ou tentaria ficar com o crédito?
Da mesma forma, se alguém que depende de uma decisão sua tivesse te contrariado no passado, isso influenciaria sua escolha?
E quando alguém da sua equipe começasse a se destacar, você criaria espaço para essa pessoa ou passaria a enxergá-la como uma ameaça?
Essas situações revelam algo importante.
O problema talvez nunca tenha sido simplesmente ter poder.
A questão está no que fazemos quando finalmente podemos fazer aquilo que antes não podíamos.
Por isso gosto mais da ideia de que o poder revela do que da ideia de que o poder corrompe.
Se o poder inevitavelmente corrompesse, qualquer pessoa que recebesse autoridade estaria condenada a se tornar pior.
E claramente não é assim.
Existem pessoas que, quando ganham poder, passam a abrir portas para outras.
Algumas protegem quem antes não tinha voz, enquanto outras dividem crédito, criam oportunidades e dão autonomia.
Em vez de concentrar tudo ao redor de si mesmas, usam a própria posição para permitir que outras pessoas cresçam.
Nesse sentido, o poder também amplifica comportamentos positivos.
Talvez, portanto, ele funcione muito mais como um amplificador.
Ele aumenta o alcance daquilo que já existe.
Liderança não deveria ser um prêmio
Existe outra armadilha nessa discussão.
Muitas organizações ainda tratam cargos de liderança como recompensa.
Você performou bem.
Entregou durante anos.
Virou referência.
Agora, aparentemente, merece liderar.
Mas talvez exista um problema na própria palavra “merece”.
Liderança não deveria ser prêmio.
Deveria ser responsabilidade.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas:
“Essa pessoa fez por merecer uma promoção?”
Talvez fosse mais importante perguntar:
“Essa pessoa está preparada para exercer influência sobre outras pessoas?”
As duas perguntas podem produzir respostas completamente diferentes.
Uma pessoa pode merecer reconhecimento, aumento, autonomia, status ou progressão de carreira sem que isso necessariamente signifique assumir gestão de pessoas.
Quando transformamos liderança na única forma de crescimento, criamos uma situação perigosa.
Passamos a colocar pessoas em posições de autoridade porque foram excelentes naquilo que faziam antes — e não porque demonstraram capacidade para aquilo que passarão a fazer depois.
Consequentemente, muitos excelentes profissionais acabam se tornando gestores despreparados.
Talvez a promoção não tenha mudado aquela pessoa
Quando um profissional começa a se comportar mal depois de assumir uma liderança, é comum ouvir:
“Fulano mudou depois que foi promovido.”
Pode ser.
Existe, entretanto, outra possibilidade.
Talvez a promoção não tenha criado aquele comportamento.
Em vez disso, pode apenas ter eliminado algumas das restrições que existiam antes.
Essa diferença muda completamente a maneira como pensamos sobre desenvolvimento de líderes.
Treinamento de liderança continua sendo importante.
Mentoria e feedback também continuam sendo fundamentais.
Ainda assim, existe um limite para aquilo que treinamento consegue resolver.
Não é razoável imaginar que todo problema de maturidade, insegurança, ego ou relacionamento surgido depois de uma promoção possa ser corrigido simplesmente colocando alguém em um curso de liderança.
Alguns sinais precisavam ter sido observados antes.
Por isso, empresas precisam avaliar não apenas performance, mas também autoconsciência, maturidade e a maneira como alguém se relaciona com as pessoas ao redor.
Naturalmente, tudo isso é mais difícil de medir.
Por outro lado, talvez seja justamente o que mais importa.
E se fosse você?
É fácil olhar para Nate e enxergar o problema.
Também é fácil sentir raiva das escolhas dele ou concluir que simplesmente não soube lidar com o sucesso.
Mais interessante, porém, é tirar Nate da história por alguns minutos.
E olhar para nós mesmos.
Imagine que amanhã você receba muito mais poder do que possui hoje.
Sua maneira de tratar as pessoas mudaria?
Ficaria mais difícil aceitar uma opinião contrária?
Quando outra pessoa tivesse uma ideia melhor, você continuaria dividindo o crédito?
E como reagiria ao perceber que alguém da sua equipe é melhor do que você em determinada área?
Talvez a pergunta mais importante seja outra:
como você trataria uma pessoa que agora depende de uma decisão sua?
Caráter não aparece apenas quando estamos tentando conquistar alguma coisa.
Enquanto buscamos reconhecimento, promoção ou determinada posição, existe um enorme incentivo para apresentarmos nossa melhor versão.
O teste mais interessante talvez aconteça depois.
Primeiro, conseguimos aquilo que queríamos. Em seguida, conquistamos mais autonomia e, pouco a pouco, passamos a exercer mais influência.
Por fim, chega o momento mais revelador:
quando finalmente podemos escolher.
Nesse ponto, nossos valores deixam de ser apenas aquilo que dizemos acreditar e começam a aparecer naquilo que fazemos.
Talvez seja exatamente por isso que o poder seja tão revelador.
Afinal, ele não mostra apenas aquilo que somos capazes de fazer.
Mostra o que escolhemos fazer quando finalmente podemos.
Então deixo uma pergunta:
Se amanhã você recebesse muito mais poder do que tem hoje, o que mudaria no seu comportamento?
E o que você gostaria que continuasse exatamente igual?
