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SE — A difícil arte de liderar a si mesmo

Líder mantém postura serena durante reunião enquanto colegas demonstram tensão, com uma cidade iluminada por tons de roxo e dourado ao fundo.

SE: a difícil arte de liderar a si mesmo

Me diz aí, você já parou para pensar no que significa liderar a si mesmo? E será que um poema de 1910 ainda pode nos ensinar algo sobre liderança e sobre os nossos comportamentos?

Pensa comigo. É fácil defender a paciência quando ninguém está te provocando.

Falar de equilíbrio quando tudo acontece exatamente como a gente planeja também não exige muito esforço.

A humildade parece simples enquanto nossas opiniões não são questionadas. Da mesma forma, acreditar na própria coragem fica mais fácil quando não precisamos enfrentar algo que realmente dá aquele medo.

Mas e quando as coisas deixam de ser tão fáceis?

O que acontece quando somos injustiçados, contrariados ou incompreendidos? Como reagimos ao descobrir que nosso esforço não foi suficiente?

E quando precisamos recomeçar depois de perder algo que levamos anos para construir?

Afinal, é relativamente simples cobrar equilíbrio de uma equipe.

Difícil é demonstrar esse mesmo equilíbrio quando os resultados não são aqueles que você imaginava.

Também é fácil falar sobre humildade. No entanto, ouvir uma crítica sem sentir que a sua autoridade está sendo questionada já é outra história.

Talvez seja por isso que a liderança mais desafiadora não seja aquela que exercemos sobre os outros, mas a que precisamos exercer diariamente sobre nós mesmos.

Aprender a liderar a si mesmo pode ser um dos maiores desafios de quem deseja desenvolver maturidade, equilíbrio e responsabilidade.

E é disso que vamos falar no episódio de hoje.

Por que o poema Se ainda importa?

Em 1910, Rudyard Kipling, um poeta britânico, publicou um poema chamado If—, conhecido em português como Se.

Escrito na forma de conselhos de um pai para seu filho, o texto apresenta uma sequência de condições que, juntas, descrevem um ideal de maturidade, integridade e força de caráter.

O poema fala de autocontrole, paciência, confiança, humildade, persistência e coragem.

Ao mesmo tempo, nos faz pensar nos perigos do orgulho, da arrogância e da necessidade de reconhecimento.

Mais de um século depois, eu acho que ele tem muito a ver com o que a gente vive no dia a dia, principalmente quando ocupamos posições de liderança.

Afinal, muitas das situações descritas por Kipling continuam fazendo parte da nossa rotina. Mudaram os ambientes, as ferramentas e as formas de trabalhar, mas os desafios humanos permanecem bastante parecidos.

Além disso, existe algo interessante na maneira como o poema foi construído: ele não apresenta respostas prontas. Em vez disso, propõe situações nas quais precisamos escolher como agir.

Nesse sentido, liderar a si mesmo exige desenvolver justamente essas capacidades: reconhecer nossas emoções, avaliar nossas decisões e agir de acordo com os valores que defendemos.

E talvez valha a pena começar simplesmente lendo o que ele escreveu.

SE: o poema de Rudyard Kipling

Rudyard Kipling, “If—” (1910)

Adaptação livre para o português.

Se és capaz de manter a cabeça no lugar
quando todos ao teu redor a perdem
e ainda te culpam por isso;

E se consegues confiar em ti mesmo
quando todos duvidam de ti,
mas também levar em conta as dúvidas deles;

Se sabes esperar sem te cansar da espera,
ou, sendo alvo de mentiras, não responder com mentiras,
ou, sendo odiado, não ceder ao ódio,
sem, contudo, parecer bom demais
nem falar como quem sabe tudo;

Se és capaz de sonhar, sem fazer dos sonhos teus senhores;
e de pensar, sem fazer do pensamento teu único objetivo;

Ao encontrar o Triunfo e o Desastre,
se consegues tratar esses dois impostores da mesma maneira;

Quando és capaz de ouvir a verdade que disseste
ser distorcida por pessoas desonestas
para enganar os ingênuos;

Ou ver destruídas as coisas às quais dedicaste tua vida,
e te curvar para reconstruí-las
com ferramentas já gastas;

Recomeçar, perseverar e preservar o caráter

Se és capaz de juntar tudo o que conquistaste
e arriscar de uma só vez,
num único lance,
e perder,
e então começar novamente do início
sem dizer uma palavra sobre tua perda;

Mesmo depois da exaustão, se consegues obrigar
teu coração, teus nervos e teus músculos
a continuarem servindo,
permanecendo firme quando já não resta nada em ti
exceto a vontade que diz:

“Continue.”

Se consegues falar com multidões
e conservar tua integridade,
ou caminhar ao lado de reis
sem perder o contato com as pessoas comuns;

Quando nem inimigos nem amigos queridos
conseguem te ferir demais;

E todos podem contar contigo,
mas ninguém em excesso;

Se és capaz de preencher o minuto implacável
com sessenta segundos de esforço verdadeiro,

então tua será a Terra
e tudo o que nela existe.

E, o que vale ainda mais,

serás um homem, meu filho.


Liderar a si mesmo: entre o que acreditamos e aquilo que fazemos

Todo mundo é equilibrado até encontrar alguém capaz de tirar sua paciência.

É fácil defender a serenidade, o equilíbrio e a inteligência emocional quando ninguém está ali te provocando.

Difícil é manter o controle quando somos acusados injustamente, quando alguém questiona nossa competência ou quando o nosso time começa a perder a cabeça.

Talvez seja justamente nesses momentos que descobrimos quanto o nosso equilíbrio depende da tranquilidade dos outros.

Afinal, se basta alguém levantar a voz para que a gente também comece a gritar, quem está realmente no controle das nossas atitudes?

Kipling começa seu poema com essa provocação: manter a cabeça no lugar quando todos ao redor a perdem e ainda nos culpam por isso.

Você com certeza já passou por alguma situação em que alguém começou a procurar culpados. Outra pessoa levantou a voz e, rapidamente, o clima ficou pesado.

Em uma discussão, existe uma tendência muito forte, quase automática, de responder à emoção dos outros com a mesma intensidade.

Quando alguém grita, sentimos vontade de gritar também.

Diante de uma acusação, queremos nos defender imediatamente. Da mesma forma, se percebemos agressividade, podemos interpretar que precisamos agir assim para não parecermos fracos.

Como resultado, sem perceber, deixamos que o comportamento de outra pessoa determine o nosso.

E aqui aparece uma das maiores dificuldades de liderar a si mesmo: perceber o que estamos sentindo antes que nossas emoções decidam por nós.

Autocontrole: escolher uma resposta em vez de apenas reagir

Existe uma diferença importante entre sentir uma emoção e permitir que ela conduza nossas atitudes.

Autocontrole não significa ausência de raiva, medo ou frustração. Pelo contrário, significa reconhecer essas emoções e ainda conseguir escolher o que fazer com elas.

Isso também não significa aceitar injustiças passivamente. Afinal, a gente não tem sangue de barata, não é?

Às vezes, a resposta mais madura é confrontar, estabelecer limites ou se posicionar com firmeza.

A questão, portanto, é conseguir fazer isso sem entregar o controle das próprias decisões ao calor do momento.

Esse cuidado vale tanto para o ambiente profissional quanto para nossas relações familiares.

Quantas discussões poderiam ter tomado outro rumo se alguém tivesse conseguido escolher uma resposta em vez de simplesmente reagir?

Pensa em quantas brigas no seu relacionamento não valeram a pena.

Talvez esse seja um dos primeiros desafios de quem deseja liderar outras pessoas: compreender que sua capacidade de influenciar um ambiente começa pela maneira como lida com as próprias emoções.

Por isso, antes de esperar que os outros mantenham a cabeça no lugar, a gente precisa aprender a manter a nossa.

Liderar a si mesmo começa quando assumimos a responsabilidade pelas nossas reações, mesmo quando não podemos controlar o comportamento dos outros.


A confiança que permite ouvir

Por incrível que pareça, a confiança também pode se tornar um problema. Existe uma linha muito tênue entre ter convicção e ser incapaz de reconhecer que está errado.

Um líder inseguro pode mudar de direção a cada questionamento.

Por outro lado, alguém arrogante pode continuar avançando na direção errada simplesmente porque não admite voltar atrás ou reconhecer o próprio erro.

Curiosamente, os dois podem estar sendo conduzidos pelo mesmo medo: o de parecerem incapazes.

Mas e se a verdadeira confiança for exatamente aquela que nos permite ouvir uma crítica sem sentir que nossa autoridade está ameaçada?

É esse paradoxo que Kipling apresenta quando fala sobre confiar em nós mesmos sem desconsiderar as dúvidas dos outros.

Liderar exige tomar decisões, inclusive aquelas que não agradam a todos.

Ao deixar de ouvir, porém, também perdemos oportunidades de aprendizado.

Além disso, existe um risco ainda maior: quando as pessoas percebem que discordar não é bem-visto, simplesmente param de questionar.

O silêncio passa a ser confundido com concordância. Então, quando algum problema aparece, nos perguntamos por que ninguém avisou antes.

O mesmo acontece em nossos relacionamentos.

Às vezes, estamos tão preocupados em provar que temos razão que deixamos de perceber o que o outro está tentando comunicar.

Não precisamos estar certos o tempo todo.

Portanto, aprender a liderar a si mesmo também exige desenvolver segurança suficiente para reconhecer nossas próprias limitações.

A confiança amadurece quando conseguimos sustentar nossas convicções sem fechar as portas para outras perspectivas.

Quando nossos sonhos começam a nos controlar

E se aquilo que você chama de ambição estiver, aos poucos, roubando a vida que você quer construir?

Trabalhamos para conquistar mais liberdade, mas acabamos sem tempo.

Buscamos reconhecimento e, em alguns momentos, nos tornamos dependentes da aprovação dos outros.

Queremos proporcionar uma vida melhor à família, mas, para isso, acabamos sacrificando nossa presença ao lado dela.

É um paradoxo curioso, não é? Na tentativa de construir a vida que queremos, podemos acabar abandonando justamente aquilo que a torna tão valiosa.

Kipling também fala disso no seu poema: o risco de transformar os sonhos em nossos senhores.

O problema não está em ter grandes objetivos, mas em acreditar que nossa felicidade e nosso valor dependem exclusivamente de alcançá-los.

Assim, a promoção, o reconhecimento, a condição financeira ou aquela conquista tão desejada podem se transformar em condições para finalmente nos sentirmos realizados.

Quando conseguimos, frequentemente estabelecemos outro objetivo. Depois vem mais um, seguido de outro.

Sem perceber, transformamos a vida em uma espera permanente.

É nesse momento que liderar a si mesmo exige algo especialmente difícil: questionar se aquilo que estamos perseguindo ainda faz sentido para a vida que queremos ter.

E pode ter certeza: ter sonhos é importante. Afinal, eles oferecem direção.

No entanto, nossos objetivos deveriam servir à vida que queremos construir, e não consumir toda a vida que temos disponível.

O poema também nos lembra de pensar sem fazer do pensamento nosso único objetivo. Nesse sentido, planejar é necessário, mas também precisamos agir.

A disciplina nos ajuda a caminhar em direção aos nossos sonhos.

Já a sabedoria nos ajuda a perceber quando estamos sacrificando demais para alcançá-los.

A mágica está no equilíbrio.

Por isso, liderar a si mesmo também envolve reconhecer quando uma conquista deixou de representar progresso e começou a comprometer aquilo que realmente valorizamos.

O triunfo e o desastre são dois impostores

O sucesso pode revelar nosso talento. Mas também pode esconder nossos maiores defeitos.

Uma promoção pode nos convencer de que somos melhores do que realmente somos. Em contrapartida, um fracasso pode nos fazer acreditar que somos muito piores.

O curioso é que a mesma pessoa, com os mesmos conhecimentos e capacidades, pode se sentir extraordinária na segunda-feira e completamente incompetente na sexta-feira.

Eu mesmo já passei por essa montanha-russa de emoções diversas vezes. Para isso, bastava que as expectativas mudassem.

Talvez por isso Kipling tenha chamado o triunfo e o desastre de dois impostores. Afinal, ambos podem distorcer a maneira como enxergamos quem somos.

Na liderança, o sucesso pode alimentar a arrogância, fazendo com que alguém deixe de reconhecer a contribuição da equipe ou passe a acreditar que suas decisões estão sempre corretas.

O fracasso, por sua vez, pode produzir o efeito contrário: esquecemos nossas conquistas e começamos a questionar toda a nossa capacidade.

Mas existe uma diferença enorme entre aquilo que acontece conosco e aquilo que somos.

Precisamos reconhecer nossos méritos, assumir nossos erros e aprender com os resultados. Ao mesmo tempo, não podemos permitir que eles determinem todo o nosso valor ou nos rotulem.

O desafio é celebrar sem arrogância e perder sem transformar a derrota em identidade.

Nesse contexto, liderar a si mesmo é conseguir atravessar tanto as vitórias quanto as derrotas sem permitir que elas distorçam completamente nossa percepção sobre quem somos.


O que fazemos quando tudo precisa ser reconstruído?

Começar do zero pode ser difícil. Recomeçar do zero, sabendo tudo o que você perdeu, pode ser ainda pior.

Na primeira tentativa, somos movidos pelo entusiasmo. Já na segunda, carregamos as lembranças daquilo que não funcionou.

O medo deixa de ser imaginário. Afinal, ele tem história e consequências, além de ajudar a formar muitas das crenças que levamos conosco.

Talvez você tenha vivido isso ao perder um emprego, um projeto, um relacionamento ou algo a que dedicou anos da sua vida.

Muitas vezes, a gente se prende ao que construiu justamente para não desistir. Só que isso também pode ser um erro.

Kipling fala sobre encontrar forças para reconstruir mesmo com ferramentas gastas. Entretanto, existe uma questão importante nessa imagem.

Será que ser forte significa reconstruir exatamente aquilo que perdemos ou ter coragem de construir algo diferente?

Persistir não deveria significar repetir indefinidamente estratégias que já não funcionam.

Na liderança, quantos projetos continuam consumindo recursos simplesmente porque já investimos muito neles?

Além disso, quantas decisões são mantidas apenas porque reconhecer a necessidade de mudança significaria admitir um erro?

Precisamos, portanto, aprender a separar nosso compromisso com um objetivo do orgulho de manter o caminho original.

Esse é outro desafio de liderar a si mesmo: reconhecer quando a nossa insistência deixou de representar determinação e passou a ser apenas uma tentativa de proteger o próprio ego.

Às vezes, a experiência nos ensina que precisamos de novas ferramentas.

Nem toda mudança representa desistência.

Em determinadas situações, mudar é exatamente o que precisamos fazer para continuar e atingir o que procuramos, mesmo que a decisão doa e pareça uma derrota.

Afinal, liderar a si mesmo também significa ter coragem para abandonar caminhos que já não fazem sentido, sem abandonar necessariamente os nossos objetivos.

A força de continuar e a sabedoria de parar

Como eu falei, nem todo mundo que desiste é fraco. E nem todo mundo que insiste é forte.

Às vezes, continuar exige coragem. Por outro lado, nossa incapacidade de parar pode nos manter presos a decisões que já não fazem sentido.

Insistimos em projetos que perderam o propósito. Ao mesmo tempo, ignoramos o próprio cansaço e confundimos exaustão com dedicação.

O sofrimento, então, passa a ser visto como prova de merecimento.

E ainda chamamos isso de disciplina.

Existe aquela ideia famosa do “No pain, no gain”, como se qualquer conquista precisasse necessariamente vir acompanhada de sofrimento.

Mas esforço desnecessário é burrice. Pensa nisso.

Kipling nos desafia a continuar mesmo quando a vontade parece ser a última força disponível. Sem dúvida, é uma imagem poderosa de determinação.

Só que existe uma diferença entre superar dificuldades e comprometer a própria saúde tentando provar que somos fortes.

A disciplina é fundamental para enfrentarmos os momentos em que a motivação desaparece.

Por outro lado, também envolve reconhecer limites, descansar e mudar de estratégia quando necessário.

E talvez uma das partes mais difíceis de liderar a si mesmo seja justamente reconhecer que precisamos descansar, mesmo quando ainda existe muito a fazer.

Afinal, de que adianta chegar ao destino se destruímos tudo aquilo que nos permitiria desfrutar da conquista?

Imagina escalar o monte Everest e morrer no topo. E aí, valeu a pena?

O desafio, portanto, está em perceber quando precisamos insistir e quando é necessário recuperar nossas forças ou escolher outra direção.

A perseverança é uma virtude. A teimosia, quando nos impede de aprender, pode se transformar em uma armadilha e, em alguns casos, até ser fatal.

Por isso, aprender a liderar a si mesmo também exige distinguir disciplina de teimosia e comprometimento de autossacrifício desnecessário.


O caráter de quem caminha entre reis

Quer conhecer o caráter de alguém? Observe como essa pessoa trata quem não tem nada a oferecer em troca.

É fácil demonstrar respeito por alguém que pode nos promover, abrir portas ou influenciar nosso futuro.

Mas como nos comportamos diante de quem não possui nenhum poder sobre nossas decisões?

Kipling fala sobre caminhar entre reis sem perder o contato com as pessoas comuns.

Talvez essa seja uma das maiores provas de humildade: continuar sendo a mesma pessoa quando conquistamos poder suficiente para agir de outra maneira.

Na liderança, essa reflexão é especialmente importante.

Um cargo pode conceder autoridade formal, mas não garante admiração e muito menos confiança.

Podemos determinar tarefas, estabelecer prioridades e cobrar resultados. Entretanto, não conseguimos impor respeito genuíno apenas por meio da hierarquia.

Nossa posição pode mudar, assim como nosso reconhecimento e influência. Apesar disso, nossos princípios não deveriam depender de quem está diante de nós.

A grandeza de alguém não precisa ser demonstrada pela diminuição dos outros.

Como você trata o porteiro do seu prédio? E as pessoas que cuidam da limpeza da sua casa, do seu trabalho ou da rua por onde você caminha?

Pensa nisso.

Liderar a si mesmo também significa preservar nossos valores independentemente da posição que ocupamos ou das vantagens que determinada situação pode oferecer.

O que ensinamos às pessoas que caminham conosco?

O problema de ensinar pelo exemplo é que continuamos ensinando mesmo quando estamos fazendo a coisa errada.

Nossos filhos não aprendem apenas quando demonstramos paciência. Afinal, eles também observam quando perdemos o controle e gritamos.

Da mesma forma, as nossas equipes não aprendem somente com discursos sobre responsabilidade, compromisso e motivação. Elas percebem como reagimos quando cometemos erros.

Consequentemente, quem convive conosco reconhece rapidamente a distância entre os valores que defendemos e as atitudes que praticamos.

Embora hoje possamos compreender essas virtudes como qualidades humanas, independentemente de gênero, a relação entre quem aconselha e quem aprende continua sendo especialmente significativa.

Como pais, líderes ou mentores, frequentemente ensinamos a importância da honestidade, da disciplina, do respeito e da humildade.

Mas como cobrar autocontrole quando perdemos a cabeça diante de qualquer contrariedade?

Da mesma maneira, como podemos ensinar alguém a reconhecer os próprios erros se temos dificuldade de admitir os nossos?

Isso não significa que precisamos ser exemplos perfeitos. Afinal, ninguém é.

Talvez um dos ensinamentos mais importantes seja justamente demonstrar como reconhecer um erro, pedir desculpas e tentar fazer melhor.

Porque lideramos pelo exemplo mesmo quando não estamos tentando ensinar absolutamente nada.

Nesse sentido, liderar a si mesmo é também compreender que nossas atitudes ensinam muito mais do que imaginamos, especialmente para as pessoas que convivem conosco diariamente.


O minuto implacável

Existe uma coisa que todos recebemos diariamente, mas que ninguém consegue guardar para usar depois: o tempo.

Podemos economizar dinheiro e recuperar determinados prejuízos.

Entretanto, não conseguimos recuperar uma conversa que deixamos de ter ou um momento importante que vivemos sem realmente estar presentes.

Existe uma ironia nisso tudo.

Passamos tanto tempo tentando construir um futuro melhor que, às vezes, esquecemos de viver a vida que já está acontecendo.

Kipling nos desafia a preencher o minuto implacável com sessenta segundos de esforço verdadeiro.

Mas cuidado com a armadilha: isso não significa estar constantemente ocupado.

Na liderança, por exemplo, uma agenda cheia pode nos dar a sensação de importância, mesmo quando passamos o dia resolvendo urgências e deixamos de lado aquilo que realmente merece atenção.

O mesmo acontece na vida pessoal. Podemos trabalhar tanto para proporcionar um futuro melhor à nossa família que acabamos ausentes de momentos importantes do presente.

Por isso, vale lembrar que o esforço verdadeiro também pode estar em uma conversa, no cuidado com alguém ou no descanso necessário.

Talvez o desafio não seja apenas preencher nossos minutos, mas reconhecer quais deles merecem ser dedicados àquilo que realmente valorizamos.

E isso também faz parte de liderar a si mesmo: decidir conscientemente onde colocamos nosso tempo, nossa energia e nossa atenção.

Afinal, o que significa liderar a si mesmo?

O maior engano sobre maturidade é acreditar que, em algum momento, deixamos de precisar trabalhar em nós mesmos.

Depois de percorrer o poema, podemos imaginar alguém permanentemente calmo, confiante, humilde, paciente e corajoso.

Mas será que alguém consegue viver assim o tempo inteiro?

Eu sei que eu não consigo.

Em algum momento, vamos perder a paciência, tomar decisões equivocadas e deixar que o orgulho ou o medo influenciem nossas ações.

O amadurecimento, portanto, não acontece quando deixamos de cometer erros, mas quando aprendemos a reconhecê-los e assumimos a responsabilidade de melhorar.

É justamente esse o desafio das virtudes apresentadas por Kipling.

Precisamos de confiança sem arrogância, ambição sem perder o equilíbrio, persistência sem teimosia e coragem sem ignorar nossos limites.

Nesse sentido, liderar a si mesmo significa desenvolver consciência para perceber quando nossas atitudes estão se afastando dos valores que desejamos representar.

Também envolve reconhecer quando o orgulho interfere em uma decisão, quando o medo nos impede de agir ou quando precisamos pedir ajuda e mudar de direção.

Talvez a principal dificuldade esteja justamente em aceitar que esse desenvolvimento nunca termina.

A gente aprende, erra, melhora e, em algum momento, volta a enfrentar uma situação parecida. Por isso, liderar a si mesmo exige atenção constante às nossas escolhas e à maneira como reagimos aos desafios.

Antes de liderar pessoas, equipes ou organizações, existe uma responsabilidade que não podemos delegar: a maneira como escolhemos conduzir nossa própria vida.

E se…

Existe uma palavra que atravessa todo o poema e que talvez seja a mais importante de todas.

Se.

Kipling não afirma que somos pacientes, corajosos ou íntegros. Em vez disso, ele apresenta possibilidades.

E se conseguirmos manter a cabeça no lugar, confiar sem deixar de ouvir, lidar com o triunfo e o desastre, encontrar coragem para reconstruir e preservar nossos valores mesmo quando somos colocados à prova?

Talvez a pergunta mais importante não seja se já nos tornamos a pessoa descrita no poema, mas quanto estamos dispostos a caminhar nessa direção.

Afinal, a vida continuará testando nossas convicções.

Vamos enfrentar derrotas, cometer erros e precisar recomeçar algumas vezes.

Certamente, não conseguiremos acertar sempre.

Apesar disso, podemos continuar aprendendo, reconhecendo nossas limitações e tentando nos aproximar da pessoa que desejamos ser.

Porque liderar a si mesmo também envolve aceitar que estamos em constante construção. Sempre haverá alguma atitude para melhorar, algum comportamento para rever ou uma escolha que poderíamos ter feito de maneira diferente.

E, se o poema nasceu como um conselho de um pai para seu filho, quero terminar com uma pergunta:

Se alguém que você ama aprendesse a viver apenas observando suas atitudes, que tipo de pessoa ela se tornaria?

Afinal, liderar envolve orientar os caminhos que outras pessoas devem seguir e assumir a responsabilidade pelo caminho que nós mesmos estamos percorrendo.

Talvez a maior demonstração de liderança não esteja na quantidade de pessoas que conseguimos conduzir, mas na capacidade de continuar nos tornando alguém que vale a pena seguir.

E talvez seja justamente essa a essência de liderar a si mesmo: compreender que o exemplo que oferecemos começa nas escolhas que fazemos quando ninguém está nos observando.

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