DEquilíbrio emocional talvez seja uma das coisas que a gente mais tenta buscar e menos consegue manter do jeito que imagina.
Quando falamos de equilíbrio, qual é a imagem que vem à sua cabeça?
Provavelmente uma balança.
Dois pratos, um de cada lado, perfeitamente alinhados.
Não, eu não estou fazendo um “six seven”. E, se você nem sabe o que é isso, não tenta descobrir. Não vale a pena.
Mas, voltando à balança, talvez essa imagem tenha feito a gente entender o equilíbrio emocional de um jeito meio estranho.
Se estar equilibrado significa manter tudo exatamente no mesmo nível, nossa vida está quase sempre desequilibrada, concorda?
Tem semanas em que o trabalho fica tão complexo que a gente entra naquela clássica capa do Batman.
Em outros momentos, a família precisa mais da gente. Alguém fica doente, outra pessoa também enfrenta uma semana intensa no trabalho e, de repente, a rotina da casa precisa ser reorganizada.
Além disso, existem períodos em que um projeto profissional ocupa quase toda a nossa cabeça.
O problema é esperar que a vida permaneça como uma balança perfeitamente parada.
Por isso, existe outra imagem de equilíbrio que, para mim, faz muito mais sentido:
o pêndulo.
Equilíbrio emocional não significa ficar parado
Uma balança em equilíbrio está parada.
Os pesos se compensam.
O pêndulo funciona de outra forma.
Ele passa pelo ponto de equilíbrio em movimento. Vai para um lado, volta, atravessa o centro e segue para o outro.
Essa diferença muda bastante a maneira como podemos pensar sobre equilíbrio emocional e sobre a própria vida.
Imagine que temos 100% do nosso tempo e da nossa energia para dividir entre trabalho, família, nós mesmos e todas as outras coisas que fazem parte da rotina.
Na lógica da balança, uma vida equilibrada significaria distribuir exatamente 25% para cada área.
Só que a vida real não funciona dessa forma.
Às vezes, uma situação vai exigir 70% da nossa atenção.
E tudo bem.
Existe uma diferença importante entre sair temporariamente do centro e esquecer onde o centro fica.
Você pode trabalhar intensamente durante alguns dias, dedicar muito mais energia a alguém da família ou mergulhar em um projeto importante.
O problema começa quando o excepcional vira permanente e aquele extremo passa a parecer sua posição normal.
É justamente aí que a imagem do pêndulo ajuda.
Equilíbrio exige movimento.
Portanto, estar equilibrado não significa nunca sair do centro.
Significa perceber para onde você foi e conseguir voltar.
Autocobrança também afeta o equilíbrio emocional
Se o equilíbrio já exige movimento, a autocobrança pode tornar esse retorno ainda mais difícil.
Existe a cobrança que vem de fora: seu chefe, sua família, seu time ou seus clientes esperam alguma coisa de você.
Ao mesmo tempo, existe outra cobrança muito mais difícil de medir: aquilo que você imagina que todas essas pessoas esperam.
E as duas coisas nem sempre são iguais.
Alguém espera que você faça um bom trabalho. Na sua cabeça, porém, isso pode virar:
“Eu não posso errar.”
Uma pessoa pergunta por que determinada entrega atrasou. Internamente, a tradução pode ser:
“Eu fiz merda.”
Dessa forma, uma expectativa relativamente pequena ganha um peso enorme.
Muitas vezes, ninguém colocou tudo aquilo sobre você.
Foi você quem acrescentou camadas de preocupação, perfeccionismo e culpa.
Quando isso acontece com frequência, o equilíbrio emocional fica mais difícil porque passamos a responder não apenas ao que aconteceu, mas também a tudo aquilo que imaginamos sobre o que aconteceu.
A distância entre responsabilidade e culpa
Algumas pessoas convivem melhor com o erro.
Outras conseguem separar responsabilidade de identidade com mais facilidade.
Ainda assim, em algum nível, quase todo mundo acaba misturando essas duas coisas em algum momento.
Eu faço.
E o pior é que ainda dou lição de moral quando alguém aparece com uma autocrítica absurda.
Com os outros, geralmente consigo olhar para a situação com muito mais clareza.
Já comigo, a conversa muda.
Por isso, quando a autocobrança começa a crescer, tento fazer uma pergunta:
“Isso está baseado em algum fato ou nas vozes da minha cabeça?”
Na maioria das vezes, existe pelo menos uma boa dose das vozes tentando me sabotar.
Vale guardar uma coisa:
Existe uma distância importante entre responsabilidade e culpa.
E, muitas vezes, atravessamos essa distância sem perceber.
Quando percebi isso em mim
Essa semana mesmo passei por uma situação assim.
Fiz uma análise baseada em uma informação que não era a mais atualizada.
Quando fui comparar o resultado depois, os números estavam totalmente diferentes daquilo que eu havia analisado.
Foi o suficiente para começar o diálogo interno.
“Agora não tem como confiar no trabalho que você fez.”
Logo depois veio outra:
“Você foi relapso nesse trabalho.”
Em poucos minutos, um problema relacionado ao dado começou a virar um julgamento sobre mim.
Eu não estava mais pensando apenas:
“Usei uma informação desatualizada.”
Minha cabeça já estava tentando transformar aquilo em:
“Eu fiz um trabalho ruim.”
Fiquei ruminando a situação por bastante tempo.
Inclusive, eu estava em um evento e me deu até dor de barriga porque o pensamento do problema voltava o tempo inteiro.
Na prática, eu tinha saído do fato e começado a carregar um peso muito maior do que o problema original.
Esse tipo de situação mostra como o equilíbrio emocional pode ser afetado não apenas pelo que aconteceu, mas também pela história que construímos sobre aquilo.
A história do mensageiro
Tem uma história antiga que explica muito bem essa ideia.
Ela aconteceu há mais de dois mil anos.
E os nomes são meio estranhos, então nem precisa decorar.
De um lado estava Lúculo, um general romano.
Do outro, Tigranes, rei da Armênia.
Lúculo e seu exército avançavam em direção ao território de Tigranes.
Até que um mensageiro chegou ao rei com uma notícia nada agradável:
“O exército romano está chegando.”
Tigranes não gostou da notícia e mandou matar o mensageiro.
Só que, a partir dali, surgiu um problema muito maior.
Os outros mensageiros entenderam rapidamente o recado.
Se levar uma notícia ruim pode custar sua cabeça, a decisão mais segura é não levar notícia ruim nenhuma.
E foi exatamente o que aconteceu.
As pessoas começaram a esconder de Tigranes aquilo que ele não gostaria de ouvir.
Consequentemente, enquanto o exército inimigo se aproximava, o rei recebia cada vez menos informações sobre o que realmente estava acontecendo.
Em outras palavras:
matar o mensageiro não fez o exército desaparecer.
Só fez o rei deixar de saber que ele estava chegando.
Mais de dois mil anos depois, ainda fazemos versões modernas da mesma coisa.
Acontece numa empresa quando ninguém quer contar para o chefe que o projeto está atrasado ou que o orçamento está sendo consumido mais rápido do que deveria.
Também acontece num time quando todo mundo percebe que uma decisão deu errado, mas ninguém quer ser a pessoa que vai falar.
Quando punimos quem traz o problema, o problema não desaparece.
Mas existe uma parte dessa história que talvez seja ainda mais interessante.
Às vezes, o rei e o mensageiro estão dentro da mesma pessoa.
E podemos fazer isso com nós mesmos.
Quando você mata o próprio mensageiro
Você percebe um problema, avisa as pessoas e tenta ajudar.
Em algum momento, porém, começa a sentir que o problema também é seu.
A partir daí, surgem pensamentos como:
“Eu deveria ter previsto isso.”
Logo aparece a dúvida:
“Será que eu não deveria ter impedido?”
Depois vem a obrigação de resolver:
“Eu preciso dar um jeito nisso.”
E, por fim:
“Como eu ainda não tenho uma resposta?”
Percebe a inversão?
Você estava carregando a mensagem.
De repente, tornou-se culpado pela existência dela.
Esse mecanismo é especialmente perigoso para pessoas muito comprometidas.
Quanto maior o senso de responsabilidade, maior pode ser a tendência de assumir encargos que simplesmente não estão sob seu controle.
Responsabilidade é uma qualidade.
Hiper-responsabilização não é.
Existe uma diferença enorme entre pensar:
“Vou fazer tudo que está ao meu alcance.”
e concluir:
“Se isso não der certo, a culpa é minha.”
As duas frases podem parecer próximas.
Na prática, existe um abismo entre elas.
Aprender a reconhecer esse limite também faz parte do equilíbrio emocional.
A culpa de tentar carregar tudo
Quando alguma coisa começa a dar errado, nossa primeira reação costuma ser colocar ainda mais peso do próprio lado da balança.
Mais esforço.
isponibilidade.
Mais preocupação.
Mais horas.
E, muitas vezes, mais culpa.
Só que chega um momento em que tentar equilibrar a balança adicionando peso deixa de fazer sentido.
Talvez a pergunta mais útil seja outra:
“Por que estou tentando carregar tudo?”
Essa pergunta muda o foco.
Em vez de procurar apenas aquilo que você poderia fazer a mais, começa a mostrar aquilo que talvez nunca devesse ter assumido.
E existe uma armadilha aqui.
Quanto mais comprometida a pessoa é, mais fácil fica acreditar que responsabilidade significa absorver tudo.
Só que não significa.
Você pode se importar muito com um resultado sem assumir que todos os fatores que influenciam esse resultado dependem de você.
Equilíbrio emocional também exige saber voltar
Eu não vou te enganar.
Você vai exagerar às vezes.
Em algum momento, provavelmente vai assumir responsabilidade demais, trabalhar além da conta, se preocupar excessivamente ou se cobrar muito mais do que deveria.
Eu também vou.
Isso faz parte.
Maturidade talvez não esteja em nunca sair do lugar, mas em perceber mais rápido quando fomos longe demais.
É desenvolver uma espécie de sensor interno capaz de avisar:
“Fui longe demais para esse lado.”
A partir daí, começa o movimento de volta.
Não com culpa.
Mas com correção.
Nesse sentido, o equilíbrio emocional funciona menos como uma posição fixa e mais como uma bússola.
Ela não impede que você saia do caminho.
Ajuda você a perceber para onde precisa voltar.
Três perguntas para recuperar o equilíbrio emocional
Da próxima vez que alguma coisa estiver pesando demais, talvez valha fazer três perguntas.
1. Qual é a cobrança real?
Comece tentando separar o fato da interpretação.
O que efetivamente esperam de você?
Não aquilo que você imagina.
Também não aquilo que seu perfeccionismo acrescentou depois.
A pergunta é mais objetiva:
o que realmente foi combinado?
Essa diferença parece pequena, mas pode reduzir bastante o peso criado por expectativas que nunca foram colocadas sobre você.
2. Qual parte disso realmente é minha?
Depois, tente separar responsabilidade, influência e controle.
Que parte da situação depende diretamente de você?
Onde existe influência, mas não decisão?
E quais elementos estão completamente fora do seu alcance?
Essa separação ajuda a evitar que preocupação seja confundida com responsabilidade.
3. Sou responsável pelo problema ou estou carregando a mensagem?
Essa talvez seja a mais difícil.
Em algumas situações, seu trabalho é agir.
Em outras, será necessário decidir ou resolver.
Mas também existem momentos em que sua função é simplesmente dizer:
“Pessoal, temos um problema aqui.”
E isso também é fazer o seu trabalho.
Apontar um risco não significa ser responsável por sua existência.
Equilíbrio emocional não é viver no meio
Talvez equilíbrio não signifique nunca chegar aos extremos.
Talvez signifique saber retornar deles.
Não é a fotografia de uma balança parada.
É o vídeo de um pêndulo em movimento.
Parte desse movimento consiste em reconhecer quais pesos realmente pertencem a nós.
Afinal, existe muito sofrimento escondido na distância entre aquilo que as pessoas realmente esperam e aquilo que decidimos que elas esperam.
Por isso, quando algo estiver pesado demais, antes de colocar mais esforço do seu lado da balança, experimente perguntar:
“Esse peso é realmente meu?”
E, se você estiver levando uma notícia difícil, apontando um problema, mostrando um risco ou dizendo uma verdade inconveniente, lembre-se da história do mensageiro.
Você pode ser a pessoa que percebeu o problema.
Isso não significa que precise se transformar na culpada por ele existir.
Talvez uma parte importante do equilíbrio emocional esteja justamente em reconhecer quais pesos realmente pertencem a nós.
Porque responsabilidade não significa carregar tudo.
E compromisso não exige que você transforme cada problema ao seu redor numa dívida pessoal.
Equilíbrio não é conseguir carregar tudo.
É saber o que carregar, até onde ir e, principalmente, como voltar.
