Quantas versões de você cabem em você?
Quando penso na minha identidade pessoal, percebo que seria muito difícil me resumir em uma única definição.
Eu consigo ser uma pessoa muito responsável. Sério quando preciso ser, educado, bom em resolver problemas. Gosto de aprender, de ensinar, tento me cuidar, corro, vou pra academia, presto atenção na alimentação e faço terapia.
Parece um adulto bastante funcional.
Ao mesmo tempo, quando estou com meus filhos, consigo atingir níveis de quinta série que talvez eu devesse ter superado há alguns anos.
E nem precisa ser só com eles. Dependendo dos amigos do trabalho que estiverem por perto, esse adulto responsável também pode desaparecer por alguns minutos.
Aí eu fico pensando: qual dessas versões é a certa?
O cara sério? O quinta série? O ansioso? O disciplinado? O skatista? O mergulhador? O fotógrafo? O que pinta miniaturas? O cara que ama resolver problemas ou aquele que só quer ficar com a família?
E tem também o menino que não gostava de estudar e virou um adulto completamente apaixonado por aprender e ensinar.
Qual deles sou eu?
Todos.
Talvez entender a própria identidade pessoal passe justamente por perceber isso.
A gente pode ser um e, ao mesmo tempo, ser vários.
E esse é o tema de hoje.
Identidade pessoal e a nossa mania de caber numa definição
Desde cedo, a gente aprende a se definir.
“Sou tímido.”
“Tenho um jeito mais sério.”
“Costumo ser engraçado.”
“Sou muito racional.”
“Fico ansioso.”
“Disciplina nunca foi meu forte.”
“Estudar não é pra mim.”
Em algum momento, porém, essas frases deixam de ser apenas descrições e começam a virar regras.
São rótulos que a gente mesmo cria e, depois, passa anos tentando obedecer.
O problema é que a identidade pessoal não é uma fotografia tirada em determinado momento da vida.
Eu, por exemplo, não gostava de estudar quando era criança.
Hoje, por outro lado, adoro aprender e gosto muito de ensinar também.
Então imagina se eu tivesse carregado aquela versão de mim até hoje como uma definição permanente:
“Eu odeio estudar.”
Só que a gente muda.
Ao longo do tempo, aprende coisas novas, desenvolve habilidades, perde alguns medos e, claro, arruma outros pelo caminho.
Por isso, talvez uma parte importante da vida adulta seja justamente perceber que algumas coisas que um dia disseram muito sobre você podem não dizer mais.
E mudar não significa que a pessoa de antes era falsa.
Significa apenas que você continuou vivendo.
Quando o crachá começa a ocupar espaço demais na identidade pessoal
Durante muito tempo, quando me perguntavam “quem é o Bruno?”, eu respondia falando de trabalho.
“Ah, eu trabalho com tecnologia.”
“Sou líder do time tal.”
“Gosto de resolver problemas.”
“Trabalho com desenvolvimento.”
Quase como se eu fosse um perfil do LinkedIn que aprendeu a andar.
Se alguém insistisse:
“Tá, mas o que mais?”
Existia um risco real de eu começar a contar toda a minha experiência profissional.
Hoje acho engraçado perceber isso porque, claro, o trabalho é uma parte importante da minha vida.
Mas ele é apenas uma parte da minha identidade pessoal.
Eu também sou o cara que anda de skate, mergulha, tira foto, pinta miniatura, corre, vai pra academia, faz terapia, aprende, ensina, faz mentoria e consegue ter conversas completamente idiotas e leves com meus filhos, capazes de fazer qualquer um perder um pouco da fé nas próximas gerações.
Por isso, quando alguém pergunta:
“Quem é o Bruno?”
Hoje eu acho essa pergunta bem mais difícil.
Responder só com a profissão seria muito pouco.
Seria como descrever uma série inteira contando apenas o cargo do personagem principal.
Tecnicamente, não estaria errado.
Só teria deixado de fora quase tudo que torna a história interessante.
Ser coerente não significa ser sempre igual
Às vezes, a gente confunde coerência com uma obrigação de reagir sempre do mesmo jeito.
Ter o mesmo tom.
As mesmas certezas.
A mesma postura.
Só que eu não falo com meus filhos do mesmo jeito que falo numa reunião com diretores.
Da mesma forma, não sou exatamente a mesma pessoa quando estou com amigos ou quando preciso tomar uma decisão importante no trabalho.
E isso não torna nenhuma dessas versões falsa.
Posso estar andando de skate num dia e, no outro, lidando com uma situação séria que exige atenção e responsabilidade.
Também posso passar um fim de semana mergulhando, tirando fotos e pintando miniaturas e, em outro momento, estar numa sessão de terapia falando sobre a ansiedade que me atormenta diariamente.
Essas coisas convivem.
Ser vulnerável não faz de você fraco.
Da mesma maneira, ser sério não elimina o humor.
Ter disciplina não significa nunca sair da linha.
E sentir ansiedade não me torna menos capaz de lidar com pressão.
Talvez a coerência, então, não esteja em se comportar sempre da mesma maneira.
Talvez esteja naquilo que continua importante para você enquanto o jeito de agir muda de acordo com a situação.
O que conecta as diferentes partes da nossa identidade pessoal
Tem uma ideia da Terapia de Aceitação e Compromisso, a ACT, que ajuda bastante aqui: a ideia de valores.
E, quando eu falo em valores, não estou falando daquela lista bonita na parede da empresa:
“Excelência. Inovação. Paixão.”
Estou falando das coisas que realmente importam pra gente e que ajudam a orientar a forma como queremos viver.
Quando olho para as minhas diferentes versões, começo a perceber alguns desses fios.
O cara que gosta de estudar e o cara que gosta de ensinar, por exemplo, têm curiosidade em comum.
Já a terapia, o exercício e o cuidado com a alimentação se conectam com a qualidade de vida que eu quero ter e com o tempo que quero viver bem ao lado da minha família.
Quando fico sério diante de um problema e tento encontrar uma solução, a responsabilidade aparece.
Por outro lado, quando estou sendo completamente quinta série com meus filhos, tem diversão, presença, conexão e, acho, uma volta a uma parte muito espontânea de quem eu sou.
O comportamento muda.
O contexto também.
Ainda assim, algumas coisas continuam aparecendo.
Talvez seja justamente nesses fios que conseguimos encontrar alguma continuidade na nossa identidade pessoal, mesmo quando nossos comportamentos parecem completamente diferentes.
Quantas versões cabem em uma pessoa? Olha o Terry Crews
Um exemplo que eu gosto muito é o Terry Crews, que esteve em um evento do qual participei recentemente.
Hoje, muita gente olha pra ele e pensa primeiro no ator enorme e engraçado, dançando em As Branquelas ou fazendo o Terry de Brooklyn Nine-Nine.
Só que essa é apenas uma das versões.
Antes de Hollywood, ele jogou futebol americano profissional.
Mesmo naquela época, porém, já existia um Terry que não combinava tanto com a imagem que a gente costuma ter de um jogador da NFL: ele desenhava e pintava.
Inclusive, conseguiu uma bolsa de estudos em arte antes de conseguir uma bolsa pelo futebol e chegou a fazer retratos de outros jogadores para ganhar dinheiro quando era dispensado dos times.
Também existe o Terry que cresceu numa casa marcada pela violência do pai contra a mãe e que falou publicamente sobre problemas no casamento, infidelidade e sua recuperação de uma dependência de pornografia.
Além disso, existe o homem musculoso, ex-jogador da NFL, que contou ter sofrido uma agressão sexual e foi ao Senado americano falar sobre como relações de poder podem silenciar quem sofre abuso.
Então qual Terry Crews é o verdadeiro?
O atleta?
Talvez o artista?
O ator?
O homem que errou?
A pessoa que precisou pedir ajuda?
Ou o sobrevivente que resolveu falar?
Todos fazem parte da mesma história.
E talvez esse seja um bom exemplo de como a identidade pessoal pode carregar experiências, contradições e transformações sem que uma precise apagar a outra.
Ser uma pessoa inteira, afinal, não exige ter uma história sem contradições.
Nem toda versão sua pede a mesma coisa
A história do Terry ajuda a chegar num ponto importante.
Reconhecer nossas várias versões não significa olhar para tudo e pensar:
“Tá tudo bem. Eu sou assim mesmo.”
Algumas coisas em nós precisam de acolhimento: medos, ansiedade, inseguranças e experiências que deixaram marcas.
Outras, entretanto, pedem responsabilidade.
Um comportamento que machucou alguém.
Uma escolha ruim.
Alguma coisa que percebemos que precisamos mudar.
Eu posso reconhecer minha ansiedade sem deixar que ela tome todas as decisões por mim.
Da mesma forma, posso entender que em alguns momentos fico mais impaciente e ainda escolher como quero tratar as pessoas.
Também posso olhar para alguma coisa que fiz e pensar:
“Eu não gosto de quem eu fui naquela situação.”
Sem transformar isso em:
“Então é isso que eu sou.”
Dá pra aprender.
Reparar.
Pedir desculpas.
Procurar ajuda.
E, principalmente, tentar fazer diferente.
Nesse sentido, talvez ser inteiro também passe por conseguir reconhecer tanto aquilo de que você gosta em si quanto aquilo que ainda precisa cuidar ou mudar.
Nem toda versão sua precisa desaparecer.
Ao mesmo tempo, não é porque ela existe que precisa comandar você.
Identidade pessoal não precisa virar uma sentença
Tem uma frase que merece um pouco de cuidado:
“Eu sempre fui assim.”
Poderia ter dito isso sobre estudo.
“Eu nunca gostei de estudar.”
E pronto.
Teria transformado uma característica de uma fase da minha vida numa definição permanente.
Hoje isso seria quase engraçado, porque gosto muito de aprender, entender coisas novas e compartilhar o que aprendo.
Imagino minha versão criança olhando pra mim hoje:
“Como assim você estuda porque quer?”
Pois é.
Por isso, tento desconfiar um pouco quando aparece um “eu sou assim”.
Será?
Ou seria mais correto dizer que eu tenho sido assim?
Às vezes, uma mudança pequena na frase já abre espaço.
“Eu sou desorganizado” pode virar “eu tenho sido desorganizado”.
Da mesma maneira, “eu sou ansioso” pode virar “eu fico ansioso em algumas situações”.
Você não está fingindo que aquilo não existe.
Está apenas evitando transformar uma dificuldade, um comportamento ou uma fase inteira da vida na sua identidade pessoal.
Nem tudo em nós precisa mudar.
Ainda assim, vale conferir de vez em quando se algumas definições antigas continuam representando quem a gente é hoje.
Quais partes da sua identidade pessoal estão aparecendo hoje?
Depois de pensar nisso tudo, acho que ficam algumas perguntas interessantes.
Quais versões suas aparecem no trabalho, com amigos, com a família ou quando você está sozinho?
Que definição antiga você continua carregando só porque um dia fez sentido?
E que parte sua está quase sem espaço hoje?
Pode ser que você esteja vivendo tanto a versão profissional que tenha esquecido da pessoa que gostava de criar.
Em outros casos, a responsabilidade ocupa tanto espaço que o lado brincalhão quase não aparece.
E talvez exista ainda uma parte sua que gostava de desenhar, tocar, correr, cozinhar, fotografar, viajar ou aprender alguma coisa simplesmente porque achava interessante.
Não precisa mudar a vida inteira para recuperar isso.
Às vezes, basta abrir um pouco de espaço.
Além disso, vale observar o que continua aparecendo em todas essas versões.
Família?
Curiosidade?
Cuidado?
Responsabilidade?
Humor?
Aprendizado?
Conexão?
O jeito como essas coisas aparecem pode mudar bastante.
Mas perceber o que se repete ajuda a entender melhor o que realmente importa pra você.
Então qual versão é a certa?
Eu comecei esse texto perguntando qual dessas versões minhas é a certa.
O Bruno sério?
O quinta série?
Talvez o ansioso?
O pai?
A versão profissional?
O cara que aprende e ensina?
Também tem o corredor, o Bruno da terapia e aquele que consegue passar horas pintando miniaturas.
Eu continuo achando que a resposta é:
todas.
Só que isso não significa que todas precisam aparecer o tempo todo.
Algumas eu quero alimentar mais.
Outras, por outro lado, quero entender melhor.
Há versões que precisam de cuidado, principalmente a ansiosa.
Certas partes também precisam ser questionadas, porque nem toda sombra reflete a realidade.
E algumas talvez já tenham cumprido o papel delas e possam ficar no passado.
Afinal, nossos erros não nos definem.
Talvez entender a própria identidade pessoal não seja encontrar uma frase perfeita para responder “quem sou eu?”.
Tem mais a ver com reconhecer essas várias partes, entender o que conecta todas elas e perceber quais ainda fazem sentido para a pessoa que você quer continuar sendo.
Porque eu continuo sendo um.
Só que cabe bastante gente aqui dentro.
Lá ele…
